sexta-feira, 4 de setembro de 2015

VIDA E FELICIDADE, MATÉRIA E ESPÍRITO

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. Vida e felicidade, matéria e espírito. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, 12 ago., 2015. p.02-02.

          Entendo felicidade um estado de completude que se alcança com uma ampla compreensão da vida, do ser, e, é claro, de nós mesmos. O paradoxal da minha fala, mesmo porque a condição humana é extremamente paradoxal, é que conquistamos a felicidade por meio do sofrimento, porque será experimentando os nossos limites que chegaremos a uma compreensão mais acabada de nós mesmos. Vejam que dentro da doutrina espírita, por mais precários que sejam ainda meus conhecimentos, esta perspectiva é mais facilmente compreendida. O que eu quero dizer é que libertos da escravidão do corpo e dos valores do mundo, no espaço, digamos assim, puro do espírito encontramos mais argumentos para explicar a felicidade por meio dos sofrimentos, porque não estaremos mais presos à matéria. Dizendo de outra forma ainda, a felicidade do espírito, que é, por fim, a felicidade que mais nos interessa, implica a superação da matéria física, ou seja, um olhar mais íntimo para o que verdadeiramente somos.
        O animal humano constitui um fenômeno que o distingui dos demais animais e isto está na sua capacidade de disseminação cultural, isto é, herdamos dos nossos pais e passaremos aos nossos filhos hábitos, costumes, valores muito próprios da nossa experiência do mundo. Isto se chama cultura: a maneira de andar, de dormir, de comer, de vestir, de falar ou mesmo de se calar fazem parte da nossa cultura. Somos, por fim, uma expressão cultural. É fácil entender que o espaço físico em que vivemos, a geografia, as condições climáticas são importantes para a nossa cultura; bem como a história política e social, democracias e ditaduras, herança religiosa e filosófica influenciam nossa maneira de estar e ser no mundo. A cultura envolve instituições e rituais. Uma cultura não se julga, porque ela é orgânica. Simplesmente é. Por fim, a cultura nos identifica e nos limita. Por vezes, se aceita incondicionalmente uma determinação cultural, sob pena de se pagar um preço muito caro. Está, pois, no processo de desenvolvimento cultural de um povo a sua capacidade, sempre crescente, de assimilação cultural. O que não podia ser aceito acaba sendo compreendido e assimilado.
         Há duas perspectivas de assimilação de uma cultura que eu poderia resumir em dois processos: o racional (científico) e o artístico. Como uma cultural muda, racionalmente? Por um processo de transformação que damos o nome de dialética. As leis da dialética podem ser resumidas no trinômio: tese, antítese e síntese e o grande motivador das transformações é a contradição. Quando uma verdade (tese) apresenta uma contradição constitui-se a antítese (anti-tese) que por sua vez apresentará também sua contradição. A síntese, por fim, terá os elementos da tese transformados pela antítese, identificados em ambas as contradições. A constatação primeira que suscita o processo dialético é a fragilidade de toda a verdade. Não há verdade absoluta. Toda verdade é relativa, e, conforme ampliamos o nosso olhar para a vida identificamos a contradição que destrói a verdade enquanto verdade. A condição feminina é bom exemplo. A ordem patriarcal dividia as funções de homens e mulheres: aqueles provedores e a estas restava o papel de cuidar dos demais detalhes da organização familiar. Aqueles transcendiam; estas imanavam. Aos homens a criação; às mulheres a responsabilidade de criar condições propícias para que o homem se fizesse grande. Um ditado popular é exemplar do fenômeno: “por detrás de um grande homem há sempre uma mulher”. É mais ou menos isto. Mas as mulheres não quiseram ficar “por detrás”, quiseram assumir a realidade, criar, transcender. Aliás, prerrogativas inerentes, ontológicas, do ser. É as mulheres fizeram, e vem fazendo, a grande revolução sexual e social; e o mundo se transformou e a cultura assimilou, não é verdade? E as verdades, e os tabus, foram caindo por terra e chega a ser até incrível que, um dia, foram verdades aceitas sem contestação.
         Estamos falando de um processo racional, as transformações operadas pela lógica da racionalidade. Entendemos que a razão não é resultado de um mecanismo desprovido dos sentimentos humanos, não é? Mas quando os mecanismos racionais atendem prioritariamente a ordem coletiva, a praticidade da organização social, cuja ordem maior é o bem estar geral, dentro de uma média de apreensões humanas, tem-se claro que a razão não dá conta de todos os homens com as particularidades das individualidades.
         Será, pois, a particularidade da individualidade responsável, também, pela transformação da sociedade, e isto se dará por meio da arte. Qual é a diferença do processo artístico em relação ao racional e dialético? Se este deduz a partir de uma verdade comum a todos os homens, inferindo-lhe as contradições, a arte infere os efeitos da realidade em uma individualidade privilegiada, o artista, e oferece-nos uma verdade inusitada, mas profundamente humana. Tudo funciona como se ele, o artista, perguntasse para si mesmo, acordando os elos com a divindade, sobre a verdade do ser. A verdade que escapou de outros homens, unidos pela coletividade e só sua sensibilidade aguçada interpretou. A arte, sendo social, se efetivará com a confirmação da coletividade desta verdade individual. De resto, a arte é inerente a todos os homens, sem distinção.
Bem, elaborei todo este discurso para dizer que o mundo e a vida se transformam. Transformamo-nos muito no último século e haveremos de nos transformar muito ainda, cada vez é mais intensa a velocidade das transformações, e penso que o mais importante diante de tal constatação é a postura que devemos ter em relação à vida material. Penso que não devemos negar e lutar contra as mudanças, mas também não devemos banalizá-las. A vida é o mais importante e a vida é aceitação, resistência e espaço propício à superação do ser.
O espiritismo nos aponta preliminarmente e privilegiadamente para a eternidade do espírito. Viveremos eternamente, nos libertaremos desta condição primitiva que nos atrela ao corpo físico. Ora, somos, em essência, espírito. A matéria corpórea é apenas uma prisão que nos libertaremos com a morte. Deveríamos, por conta disto, não nos apegar tanto a estar entre os vivos, mas ansiar pela suprema liberdade, e a verdadeira vida que é a vida espiritual, mas não é isto o que acontece: queremos a vida material e é necessário e sábio que assim seja, na medida da necessidade da aprendizagem do espírito. O homem é o único animal que sabe que vai morrer, mas vive como se fosse eterno e está nisto a mais profunda verdade da vida, paradoxal como tudo que se refere ao ser. 

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