domingo, 23 de agosto de 2015

MARIA, NO RITMO DO CORAÇÃO

Este conto foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue referência abaixo:

GATTO, Dante. Maria, no ritmo do coração. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, 26 ago. 2015. p.02-02.



Dante Gatto

Voz de criança (gritando): mãe, mãe, mãe....
Voz de mulher (gritando): Maria...
Voz de homem (gritando): Maria...
Maria: calma, estou aqui!
Criança: mãe, estou com fome.
Mulher: Maria, me faça um favor...
Homem: Maria, vem aqui.
Maria: já vou, já vou...
Maria (em outro tom, como se falasse para si mesmo): a eterna fome dos homens.
Maria (em outro tom, como se falasse para algo transcendente que, no caso, é o público): se você perguntar a uma mulher o que é ser mulher, certamente ela terá uma resposta que, independente das palavras e da argumentação, estará temperada de mágoas. E é isto que deveria ser a coisa mais significativa para se pensar na condição da mulher. Mesmo porque ser mulher não é uma condição, nem um estado. Ser não é estar. Talvez seja até me permitido dizer que ser mulher é compreender isto, chorando, porque vivemos a dolorosa tensão entre aceitação e superação, de resto condição do ser humano.
Mulher: Maria, o que está fazendo?
Maria (em outro tom): pensando.
Mulher: Mas precisa parar tudo para pensar?
Maria (para o público, admirada da súbita constatação): Sim, é preciso parar tudo para pensar. É preciso se sintonizar.
Mulher: Teu homem e teu filho estão te chamando, precisam de você.
Maria: sim, eu sei.
Mulher: e vai ficar ai, pensando? (em outro tom) Bem, eu preciso que você me faça um favor.
Maria: diga.
Mulher: preciso que você fique com meus filhos, hoje à noite.
Maria: sim, mas o que aconteceu?
Mulher: visitas em casa.
Maria: não entendi.
Mulher: minha futura patroa virá a minha casa. Ela quer ver como cuido da minha casa para decidir se me contrata ou não.
Maria: Nossa! Vote!
Mulher: e ela quer empregada sem filhos.
(Maria tem um acesso de tosse como se engasgasse com a saliva).
Maria (conseguindo falar): mas, você vai esconder o fato de ter filhos?
Mulher: Vou.
Maria: mas, por favor, pense bem...
Mulher: Maria, não precisa pensar não. Eu trarei as crianças às seis horas.
Maria (meio inconformada): então tá!
Maria (em outro tom, como se falasse para algo transcendente que, no caso, é o público): ser mulher é pensar sentindo. Tentar não pensar não resolve os problemas. Só haveremos de adiá-lo para outras gerações. Pare, pense, sinta. Mesmo que não for possível nenhuma revolução ela haverá de se construir em você.
Criança: mãe, tá chorando?
Maria (para o público): Temos de ter clareza da nossa luta...
Homem: tua mãe fica linda quando chora.
Maria (para o público, continuando a fala anterior): clareza da nossa luta, contra todas as formas da ideologia dominante, até as mais doces.
Homem: como?
Maria: o almoço está na mesa.

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