quarta-feira, 17 de junho de 2015

DADOS DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Durante, o romantismo, mais do que em qualquer outro período, insistiu-se na necessidade de se afirmar a particularidade brasileira. A independência fez parte do cenário histórico. O romantismo europeu reagia também à universalidade da Ilustração, voltados à nacionalidade como emancipação mental. A busca da autonomia evidencia-se como um desafio. Fundem-se, esforços diversos, num mesmo objetivo: a criação da nação brasileira. Trata-se de projeto político deliberado, amparados por D. Pedro II, que unifica e justifica a busca romântica do literário e historiográfico. Acreditava a elite intelectual do Segundo Reinado, servida das ideias românticas, que era preciso haver literatura e historiografia brasileiras para a existência da nação. Literariamente, o que fora produzido antes adquiria um sentido de retrospecto por conta do empenho no estabelecimento de um cânone literário. Antes do romantismo não se fazia propriamente literatura brasileira como consciência. Não se constituía como sistema como aponta Candido (Formação da literatura brasileira).
Curiosa e ironicamente, são estrangeiros que fundam a crítica literária e a historiografia romântica brasileira: o francês Ferdinand Denis, os ingleses Robert Southey e John Armitage, e o bávaro Karl Friedrich Philip von Martius. Denis, já em 1826 (Resumé de l’histoire littéraire du Portugal, suivi du resumé de l´histoire du Brésil), aponta a necessidade de realizar a independência literária do Brasil. Isto, aliás, será objetivo de quase todos os intelectuais brasileiros. Deveríamos, pois, desenvolver vida autónoma, superando as formas mentais da época da colônia, o que é mais particular ao Brasil: a combinação de diferentes raças, cuja acomodação ao nosso meio natural, resultaria um caráter original ao povo. O indianismo surge de tal preocupação.
       Dez anos depois dos pioneiros estrangeiros que nossos literatos (Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel Araújo Porto Alegre e Francisco de Sales Torres Homem) criam a Niterói, revista brasiliense de ciências, letras e artes (1836), mas em Paris. A Niterói insere-se num quadro maior de publicações, que, antes e depois dela, procurarão usar a cultura com objetivos práticos, de promoção do progresso material. A Minerva Brasileira, de 1843, no Rio, continua o programa proposta por Magalhães. A Revista Guanabara (1849) também é editada pelos românticos Porto Alegre, Joaquim Manoel de Macedo e Antônio Gonçalves Dias. Em 1859, surge a Revista Popular e durará apenas três anos.
     Há uma postura mais independente à medida do afastamento do Rio e o domínio dos literatos em torno de Magalhães. Surge, em São Paulo, entre os estudantes do Largo de São Francisco, a poesia ultrarromântica (Alvares de Azevedo, Aureliano Lessa, Fagundes Varela) e mesmo a poesia abolicionista de Paulo Eiró. Enfim, a temática indianista e a preocupação nacional se fazem menos presente.
As antologias literárias também fazem parte do esforço de dotar o Brasil de autonomia cultural. Nelas procuram estabelecer um cânone brasileiro, conforme entendiam que as obras deveriam expressar “ideias e sentimentos do país”. Podemos citar Januário da Cunha Barbosa (Parnaso brasileiro, 1829), J. M. Pereira da Silva (Parnaso brasileiro, 1843), Francisco Adolpho de Vernhagem (Florilégio da poesia brasileira), Fernando Pinheiro (Curso de literatura nacional, 1862), Ferdinand Wolf (O Brasil literário, 1862)
      Além das antologias e revistas, havia uma preocupação na autonomia da língua falada. O romantismo alencariano está neste projeto. Ora, deveríamos ser diferentes, sofrendo a influência da mestiçagem racial, cultural e até mesmo linguística.
    Nossos românticos estão de acordo no que se refere a necessidade de emancipação mental do país. A divergência está em como narrar a história dessa emancipação. Para alguns, como Magalhães, a independência literária coincide com a emancipação política, mas há discordância como a de Nunes Ribeiro que acredita que a individualização da literatura brasileira antecede à formação do Estado no Brasil, já que refletia as condições particulares do país. A identidade nacional está relacionada com a independência, mas não inteiramente coincide com ela. Ora, a autonomização de interesses e estilos de vida entre americanos e europeus é iniciada na colônia, toma força com a emancipação política e o processo avança.

         Enfim, os brasileiros, desde a colônia, estiveram unidos no projeto de que o Brasil tenha uma literatura própria, que exista como nação independente.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

RICUPERO, Bernardo. A independência literária. In: O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 85-111.

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