quarta-feira, 27 de maio de 2015

ASPECTOS DO SUCESSO DE MACHADO DE ASSIS

A determinado momento da minha vida acadêmica, mais necessariamente quando li o conto “Missa do Galo” tomei por empreita escrever alguma coisa sobre o narrador machadiano. “Missa do Galo” de fato é o conto mais popular de Machado juntamente com “A Cartomante”, e guarda a mesma fórmula narrativa, em se pensando no narrador, do romance Dom Casmurro. No caso, o narrador protagonista (terminologia de Norman Friedman) que narra de um tempo posterior aos acontecimentos que estão sendo narrados (Genette tratará o modelo como voz autodiegética em nível extradiegético). Quer dizer, o narrador é personagem, no caso, o protagonista, e narra na maturidade um acontecimento que ocorreu quando ele era jovem.
Os narradores (Nogueira e Bentinho) não explicitam a tensão do que pensava (jovem) com o que pensa (velho), mas dão uma unidade, um remate à narração. A tensão jovem/velho fica escamoteada em nome do discurso produtivo à narrativa. O velho tentará fazer coerente o pensamento do jovem, mas não é o jovem que está narrando e fica uma lacuna entre o que o jovem diria e o que o velho diz. O que quero dizer? Quero dizer que compomos o que pensávamos mediatizado pelo que pensamos. Este processo absorve pesada carga ideológica. Bem, é isto. O que importa é a ideologia.
Todo discurso traz em si, inevitavelmente, uma ideologia. Tolice pensar que podemos se fazer seres desideologizados. Talvez a melhor maneira de abarcar a questão seja pensar no discurso crítico literário como fez Barthes (“O que é a crítica”. In: Crítica e verdade) uma vez que sua prerrogativa será não esconder a ideologia pelo silêncio, porque não estará procurando verdades, mas sim validades. A validade é a consciência da transitoriedade da verdade. A literatura é um sistema de signos, uma linguagem, em que o essencial não está na mensagem, mas no sistema. Mas, é claro, que a prerrogativa de Bentinho não estava em pensar Capitu em busca de validades, mas ele queria verdades por conta da dor de corno, não é? Se não fosse assim não seria verossímil. O que quero dizer é que a grande atração que a obra nos oferece está em como o narrador tenta esconder a ideologia que emprega em nome da afirmação de verdades. Por fim, a personagem Bentinho queria verdades, mas o autor implícito trabalhava com validades e carrega o narrador consigo neste objetivo.
O que sustenta o discurso de Bentinho em volta à possível traição de Capitu, como é essencial à toda narrativa, é a verossimilhança. Era preciso justificar o fracasso da relação com argumentos plausíveis, temperado com dúvidas coerente com a duração da mesma. Um jogo em que todo efeito deve ter uma causa proporcional. Acho exagerado, por exemplo, o ciúme de Otelo, mesmo com a coerente e forte armação de Iago. Mas o drama de Bentinho passa bem, acomodado a uma narrativa, ao discurso indireto, subjetivo (subjetividade do narrador) em que Capitu não tem vez nem voz.
Talvez este seja um ponto pouco discutido da arte narrativa. O discurso ideológico construindo uma contra-ideologia. No efeito estético, em se pensando em Dom Casmurro, a contra-ideologia vence, porque Capitu acaba se tornando ícone dos movimentos feministas, enquanto Bentinho acabou identificado como machista, misógino e até homossexual.
O fenômeno se explica pela maneira como se lê como argumenta Jorge Luís Borges. O que Machado descobriu que transcende qualquer fórmula? Descobriu que a inquietação humana irrefreável do leitor é produtiva e carece de espaço para se desenvolver. O escritor tem que dar espaço ao leitor para que ele participe da história. Se o narrador, quer intra ou heterodiegético, tende a explicar tudo em discurso objetivo e avaliativo o que sobra ao leitor? Concordar e apreciar a construção estética ou a erudição do narrador? Ora, não tem dúvida que uma prosa conceptista, por exemplo, tem justificadamente seus apreciadores como, por vezes, lemos de bom grado um tratado filosófico. Mas na ficção, a lacuna bem colocada, os silêncios, as elipses, por exemplo, suscitam inferências e o leitor entra em campo pronto e animado para julgar este ou aquele personagem como se fossem vivos. Ora, o autor emprestou-lhes vida com os recursos da arte literária. A arte é criação e a criação suscita a vida.

As perguntas que insurgem do processo ganham respostas sempre transitórias. Sabemos disto, não é? Mas tal evidência não inibi o processo: não deixamos de questionar. Por fim, esta nisto o sucesso de Machado no que se refere à arte narrativa. Ele descobriu que ansiamos por perguntar e ofereceu condições propícias para a realização de tal anseio. E Bentinho e Capitu sobrevivem porque suscitam perguntas da nossa inconclusa natureza humana.

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