quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O AUTOR E A PERSONAGEM

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

GATTO, Dante. O autor e a personagem. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 17 set. 2014, p.07.

Na vida, respondemos, conforme nossos valores, a cada manifestação daqueles que nos rodeiam. São respostas a manifestações particulares, são impressões fortuitas do todo. O autor, no entanto, acentua cada particularidade da sua personagem, traços, sentimentos, pensamentos e acontecimentos da sua vida a partir da consciência do todo. A resposta do autor às manifestações isoladas da personagem é especificamente estética: cada manifestação particular torna-se importante a medida em que caracteriza o todo, como elemento dele.
Em princípio, o autor não alcança um todo estável e necessário da personagem, mas terá de se inteirar da sua verdadeira diretriz axiológica. A personagem, neste processo exibirá muitos trejeitos, máscaras aleatórias etc., “em função das respostas volitivas emocionais e dos caprichos da alma do autor” (BAKHTIN, 2003, p.4). Ora, “a luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo”. (BAKHTIN, 2003, p.5).
            O esquema psicológico desse processo não tem nenhuma serventia para a estética. Tratamos com ele na medida do que se realiza na obra. “[...] o autor cria, mas vê sua criação apenas no objeto que ele enforma, isto é, vê dessa criação apenas o produto em formação e não o processo interno psicologicamente determinado”. (BAKHTIN, 2003, p.5). O artista, todo situado no produto, nada tem a dizer sobre o processo. Ao falar da obra o autor substitui a atitude “efetivamente criadora” por uma atitude nova e mais receptiva em relação à obra já criada.
Depois de criada, a personagem alcança independência do autor, e ele mesmo, seu criador ativo, também se tornou independente de si. Faz-se incerto o material que nasce do autor sobre o processo de criação da personagem.
A consciência do personagem é abrangida pela consciência concludente do autor a respeito dele e do seu mundo. O interesse ético-cognitivo pelo acontecimento da personagem é acabado pelo interesse artístico do autor. O todo que conclui a personagem lhe chega de cima para baixo – como um dom – de outra consciência, do autor. Na vida, não podemos viver do acabamento, mas precisamos da consciência do inacabado para viver. O autor guia a personagem e sua orientação ético-cognitiva no mundo, essencialmente acabado.
            Há, pois, diferença da objetividade estética da objetividade cognitiva e ética. Para a estética, o centro axiológico é o todo da personagem e do acontecimento e a objetividade ética é uma avaliação equânime de significação de uma dada pessoa e acontecimento. Todos os valores éticos-cognitivos, é claro, devem estar subordinados à objetividade estética que os abarca. Os elementos do acabamento são transgredientes (fora do que está sendo pensado) tanto à consciência real da personagem quanto à possível consciência “que parece continuar em linha pontilhada”. (BAKHTIN, 2003, p.12). O autor enxerga o que enxerga a personagem e o que lhe é inacessível. Mas na consciência da consciência da personagem está o inacabado. Portanto, a unidade ativa, por princípio transgrediente à consciência da personagem, criticamente tensa e de princípio desses elementos tem o autor como agente vivo.
Decorre daí a fórmula geral da relação basilar esteticamente produtiva do autor com a personagem: relação de uma tensa distância do autor em relação a todos os elementos da personagem, espaço tempo, valores e sentidos que permitem abarcar integralmente a personagem e completá-la até fazer dela um todo com elementos que de certo modo são inacessíveis a ela mesma e nela mesma, justificá-la e acabá-la “desconsiderando o sentido, as conquistas, o resultado e o êxito de sua própria vida orientada para o futuro”. (BAKHTIN, 2003, p.12). Esta relação afasta a personagem do autor e a cria como um novo ser em um novo plano da existência, no qual ela mesma não pode nascer de suas próprias forças, reveste-a de uma nova carne que para ela mesma não é essencial nem existe. Implica o acabamento do acontecimento da vida da personagem por um espectador cognoscente e eticamente alheio. Essa relação é de profunda vitalidade e dinamismo. Não se trata de uma luta de vida, mas de morte, principalmente no caso de personagem autobiográfica. Não só nesta circunstância, mas revela-se difícil o distanciamento. Neste caso, “os valores da vida são superiores ao seu portador”. (BAKHTIN, 2003, p.13). São vivências axiológicas distintas, do autor e da personagem, em relação à vida.

Referências


BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem. In: Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 3-20.

2 comentários: