domingo, 24 de agosto de 2014

CADA UM COM SEUS POEMAS DE PAULO CESAR DESIDÉRIO COSTA

Este artigo foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

GATTO, Dante. Cada um com seus poemas de Paulo César Desidério Costa. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541). Tangará da Serra, 29 ago. 2014, p.6.

Diante do primeiro livro de Paulo Cesar Desidério Costa (PC) Cada um com seus poemas, num primeiro olhar, temos a impressão que estamos diante de mais um trovador. Ora, as quadrinhas rimadas. Mas se trata de uma impressão passageira. A Trova obedece a características bem definidas: quarteto ou quadra em redondilha maior com sentido completo e independente, diferentemente do cordel que conta uma história que se desenvolve por várias estrofes. A trova exige o verso regular, aquele medido com sete sílabas poéticas, no caso. Muito musicável, aliás. Paulo, pelo que tudo indica, não dá atenção à metrificação o que resulta em versos livres, mas rimados, preferindo, na quase totalidade dos casos, as emparelhadas (AABB) diferentemente do usual que são as cruzadas (ABAB) ou interpoladas (ABBA) que ele acaba também praticando em vários momentos. É um fenômeno interessante. Cabe lembrar, antes de avançarmos, que PC prática também os tercetos e estrofes irregulares.
Houve momentos na história da literatura em que a rima perdeu prestígio. O mais significativo desses momentos foi o começo do século XX que costumamos chamar de modernismo, se bem que versos brancos (verso regular sem rima) já vinham sendo praticados com grande sucesso, notadamente por Basílio da Gama (1741-1795) e Fagundes Varela (1841-1875). Este último, aliás, já começou a pecar descaradamente na metrificação. Críticos observaram o fenômeno sem desmerecimento ao poeta, mas ainda se esperava o verso regular.
A tendência é que a rima consoante seja acompanhada pelo verso regular por força da tradição. O verso livre se acomodará melhor aos demais recursos sonoros. Mas estamos aqui prefaciando uma obra que aponta em outro sentido: verso livre, com rima. Ora, como eu anunciei no primeiro parágrafo: um fenômeno bastante interessante pelo fato da rima perder sua condição clássica de rima. A pós-modernidade, na arte, resultou nessa convergência de estilos em que é possível vários estilos se fundirem em nenhum estilo.
O livro apresenta 84 poemas dispostos em ordem alfabética em que o eu-lírico dispõe questões pançudas ao lado de impressões fortuitas. Ao mesmo tempo em que poeta sobre o tempo, a consciência popular, a alienação, a insegurança, a condição lírica etc., PC, também, observa, por exemplo, a diversidade capilar. Há um tom de conselho nos seus versos em que fica a tensão entre o anseio de unidade e a complexa diversidade. “Um por todos, todos por um” o eu-lírico expressará em meio ao cada um na sua. Um retrato da contemporaneidade, não é? A situação não se resolve. A falta de terreno sólido para acomodação das identidades resultou de certa forma em uma acomodação forçada que, por sua vez, forçou, também, a instauração do eterno presente. O futuro mesmo era uma utopia moderna. Não há saída. As utopias da modernidade não deixavam de ser, também, niilismo, mas na pós-modernidade caímos em infinitas formas de niilismo. Há, sim, um mal-estar nesta “Vida dividida” em que fragmentos da realidade se exibem a nossa possibilidade de selecionar alguma informação neste verdadeiro oceano informacional. Há de se ter critérios de escolha. Os conteúdos já não importam mais, porque o discurso tomou o seu lugar e se tornou produtor de valores.
Barbuy em “Nota para esta edição” da quarta parte de O Mundo como vontade e representação, diante do convite schopenhauriano para o nada, adverte que este nada é recarregado com a própria vontade que é um absoluto do qual somos apenas as representações. Com isto o nada é insuflado de esperança: esperança no nada, esperança na morte, que o tornaria em algo positivo, elo de libertação e retorno ao Ser. “Porque a verdade é que, por toda parte, estamos diante do Ser e cercados de Mistério.” O Nirvana, que fascinava Schopenhauer, e que solicitava negação da vontade era o que os santos chamam “o reino positivo da Paz, e de Deus”. A obra que nos convida ao nada, por fim, suscita um caminho para o Ser.
A poética de PC constitui-se, afinal, resistência e afirmação da vida: “Viva” é apelo à vida e é, também, uma exclamação saudatória dela. Sabemos bem que não adianta tentar negar com palavras o que a experiência afirma: “a experiência interior, a única realmente válida, no âmbito da vida, que é o âmbito da verdade”. (SCHOPENHAUER, s.d. p.21-2). Ideia esta, aliás, que o próprio Schopenhauer assinou.

Referências
BARBUY, H. Nota para esta edição. In: SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d. p.17-9.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d. p.21-2.

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