segunda-feira, 23 de junho de 2014

O SENTIDO DO TRÁGICO E A CONTEMPORANEIDADE

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará:


GATTO, Dante; RODRIGUES, Demilson Moreira. O sentido do trágico e a contemporaneidade. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p. 7, 25 jun. 2014.

(Escrito em parceria com DEMILSON MOREIRA RODRIGUES)

O trágico não deve ser visto como um acontecimento pontual, mas com todos os elementos subjacentes de uma complexa substância. Na base do fenômeno está a afirmação da existência, a superação de todas as formas de niilismo, a vida aceita na sua inteireza. Vamos refletir a contemporaneidade sob tal perspectiva.
O mundo melhor, para a modernidade, era outro mundo, uma conquista para o futuro e não faltaram infinitas promessas nesse sentido (uma espécie de segundo tempo do recrudescimento capitalista do final do século XIX e começo do XX). A tradição, no caso da modernidade, era um atraso, passível de superação. A pós-modernidade implicou abandono desse idealismo, o fim das utopias, porque acabavam sendo uma forma de niilismo, considerando a perspectiva nietzschiana, na medida em que eram crenças inventadas, colocadas acima do real, anulando a vida.
A pós-modernidade assimilou o fracasso das utopias da modernidade. Não há futuro, mas um eterno presente, emprestado a feliz expressão de Maffesoli (2003). Mas permanece uma mal estar, como Bauman (2008) identificou. Ora, a impossibilidade de qualquer certeza representa o convívio com a incerteza. O que nos é incerto não deixa de ser desconfortável. Desapareceu o futuro e a presença do passado perdeu força por conta da vertiginosa onda de informações, combinada a falta de tempo de assimilação.
Lyotard (1986) vê o cenário pós-moderno como essencialmente cibernético-informático e informacional. Não se está mais numa perspectiva de buscar informações, mas saber selecionar a pertinente, com o apuro interpretativo no sutil jogo da linguagem em que o desempenho vale mais que a verdade.
A história do capitalismo parece ter chegado a um extremo contundente com o fim da alternativa socialista. O que temos agora como resposta dialética? Na falta de resposta, experimentamos o sabor acre das contradições. Escapa-nos o pertencimento simbólico por falta de profundida temporal, porque a ideia de futuro aparentemente desapareceu. E na dialética do niilismo os grandes projetos do idealismo moderno foram substituídos pelo efêmero prazer do consumo sem transcendência, do presente pós-moderno.
A consciência da complexidade foi resposta a um suposto desejo de completude. Já nos primeiros anos do século XX tem-se clareza da impossibilidade de apreensão da verdade do homem pela influência da psicologia de Ribot, do intuicionismo de Bergson e das teorias de Freud. A arte literária absorveu isto, bem como é prerrogativa de formas atuais, como o novo romance histórico, a impossibilidade de conhecer a verdade histórica ou a realidade, o caráter cíclico do processo e a imprevisibilidade dos acontecimentos, indicando que a realidade, por vezes, escapa a qualquer apreensão.
Com a tradição desenganada, os processos de ascensão social desligaram-se da igualdade de direitos e obrigações e dos valores tradicionais que sustentavam a vida social. O acaso agora se faz poderoso como nunca, das perspectivas reduzidas da mídia que fabricam celebridades instantâneas, conforme os requisitos de um mercado espúrio. O preço ganha valor social e o valor humano fica condicionado ao preço desse mercado.  
Nem tudo, no entanto, é pessimismo. Há um otimismo na pôs-modernidade. Um otimismo trágico. Se isto está lhe parecendo paradoxal é porque você ainda não entendeu o que é trágico. As utopias futuristas deram lugar ao presente eterno (enquanto dure). O homem recuperou o tempo sagrado das festas dionisíacas. Se não há mais nenhum conforto metafísico, o ideal de Nietzsche se faz presente, apontando o devir: “O dizer sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e mais duros, a vontade para a vida, que se alegra em sua própria inesgotabilidade ate mesmo no sacrifício de seus mais altos tipos”. (NIETZSCHE, 2003, p.86). Quão diferente, por fim, é o vir-a-ser nietzschiano da concepção aristotélica da catarse (purgação pelo pavor e compaixão) que alicerçava a ideia de futuro. Não há mais futuro a ser construído por um ideal utópico, mas sobrevive a alegria da celebração da vida, verdadeiramente trágica.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1986.
MAFFESOLI, Michel. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. Tradução Rogério de Almeida, Alexandre Dias. São Paulo: Zouk, 2003.

NIETZSCHE. Ecce homo. Porto Alegre: L&PM, 2003.

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