quarta-feira, 11 de junho de 2014

A VOZ DO MEDO

Este texto foi publicado também no jornal Tribuna de Tangará:


GATTO, Dante; SILVA, Suelene Firmino de Oliveira. A voz do medo. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p. 7, 16 jul. 2014.

(escrito em parceria com SUELENE FIRMINO DE OLIVEIRA SILVA)

Há muita dignidade no medo.
Trata-se, o medo, de um sentimento por demais construtivo, mesmo nas suas formas menos nobres, mesmo porque a construção pode não edificar, como o conformismo no sentido de acomodação. O sublime seria sua forma mais digna, penso eu. Diante da violência de forças maiores que nos oprimem a vontade há a saída da sublimação. A cultura, absorvendo-a, representa mesmo uma forma de libertação. O homem se equilibrará em dignidade diante da sua vontade reconduzida. Seria isto o que Schiller designa como faculdade moral absoluta. Ora, a sublimação opera, apesar da desarmonia entre sensibilidade e razão: se o homem físico sente suas limitações o homem moral se eleva precisamente por aquilo que esmaga o outro contra o chão. Se o mundo físico é o guardião da nossa felicidade, é o mundo moral que estabelece nossa dignidade.
Pode haver dignidade no medo.
Por exemplo, você está em uma floresta e ouve um som inédito, uma voz que seja, emitido por algum animal. Você não conhece o som e, portanto, não conhece também o animal que pode muito bem representar um perigo. Você fica com medo, não é? E se coloca em prontidão, e se arma de estratégias para evitar um possível mal. Vamos supor que você descubra de que animal se refere, e realmente a coisa é digna de cuidado. O medo ao institucionalizar procedimentos institucionaliza a si mesmo. Não há mal nisso. Mas há de se reconhecer a eventual subjetividade que pode conter o processo. A subjetividade é produtiva, mas tal produção pode ser muito pouco edificante.
Recebi uma mensagem, cuja motivação era a indignação de um professor substituto da UNEMAT, condenando a determinação judicial que o impedia de votar. Reivindicação justa, não é? Mas o autor, que falava em nome de um grupo, manteve a mensagem anônima e não identificável pelo endereço do remetente, justificando-se: insegurança, possibilidade de retaliação por vingança etc. Um medo, aliás, já institucionalizado.
O anonimato é sintoma do medo. O medo cria, numa organização, estratégias políticas de medo. Vejam a subjetividade produtiva. Provavelmente, aqueles que não queriam o voto dos professores substitutos têm medo do medo institucionalizado pela doença organizacional, porque, talvez, eles pensem que o professor substituto vai votar na situação que lhe é conveniente por medo. Na verdade, é isto mesmo, não é? A mensagem anônima, por fim, é o medo do medo do medo. Quando mais o medo cria níveis menos ele parece medo e mais ele se torna produtivo enquanto instituição. A mensagem anônima está no último nível (terceiro), como resultado do medo que levou a impedirem o voto dos professores substitutos (segundo nível), que foi gerado pelo medo da contingência enquanto professor substituto (primeiro nível). No primeiro nível está, pois, uma subjetividade muito produtiva, não é verdade? A UNEMAT já perdeu o voto universal, no Congresso de 2008, porque tínhamos medo da suscetibilidade dos alunos. Vamos, por fim, somando perdas por medo.

Até que ponto o medo suscitado por uma subjetividade traz em si dignidade? Difícil responder isto, não é? Pode-se dizer que Ghandi morreu por assumir pessoalmente sua política de não violência. Há muito dignidade nisto, mesmo para os seus 78 anos. Não se apresenta aqui a subjetividade produtiva do medo, se bem que pode muito bem ter existido medo. E a mensagem sem remetente que suscitou este artigo traz em si dignidade? A resposta pode variar muito, dependendo de quantos níveis de medo temos por detrás da institucionalização do fenômeno. Eu nem vou responder a minha própria pergunta e é mesmo por medo, afinal eu não sei o perigo que pode me oferecer a situação, nem sei quem é o remetente. Como o homem na floresta eu só ouvi uma voz. Muito medo.

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