domingo, 8 de junho de 2014

A PROBLEMÁTICA NA CRÍTICA DE ROMANCES

(escrito em parceria com Bruna Marcelo Freitas)

            Adolfo Casais Monteiro (1964, p.42) adverte que toda grande arte tem de fato mais que arte dentro de si, na sua própria essência. As grandes obras de arte parecem-nos a “decantação das mais altas idéias, das mais altas formas de sentir, das mais profundas expressões do homem em cada época”. A arte, como a flor, tem sua terra mãe, mas parece a arte uma flor nascida na rocha, ou de si própria. Falar da obra, portanto, implica uma “conscientização do que elas representam e envolvem”. Fazer compreender a obra em relação a tudo se faz tarefa de crítico.
Percy Lubbock (1976, p.16-17) argumenta que ao crítico fica impossível apresentar um relato realmente científico de um livro. Seria impossível mesmo que sua memória fosse infalível. Um quadro, por exemplo, permanece imóvel e permite visões que convergem sobre ele, e ainda assim duas visões encontrarão dificuldades na crítica. No caso do livro, não há nada para apontar senão o volume. Os eventuais erros, portanto, se evidenciam mais facilmente numa escultura ou num quadro. Bem, isto se aplica ao romance, também, se se tratar de um erro por demais escandaloso. Há romances, no entanto, que sobrevivem, apesar de mal construídos. O fato é que a arte da ficção se relaciona com a forma, com o plano e a composição de uma forma diferente que as outras artes. E “o crítico literário precisa reconhecer que seu desejo de ser preciso, definido, claro e exato nos enunciados é irremediavelmente inútil”. A única coisa que se pode dizer é que o livro talvez possa ser abordado, um pouco mais de perto de um jeito que de outro.
            Nos poemas pode-se um fragmento servir como ponto de partida e reconstruir a impressão geral, no romance precisamos dele todo. Qualquer recurso ao texto é de auxílio secundário. Adolfo Casais Monteiro (1964, p.37) estende-se nestes “grandes obstáculos” de refazer criticamente a leitura de um romance. Isto não impede, no entanto, a abordagem analítica. Mas não comprometerão a primeira leitura? Perderá a visão de conjunto que está no todo? Quando se trata de uma obra medíocre isto fica atenuado. De qualquer maniera, é “impossível” corresponder exatamente ao objeto.
            Pergunta Monteiro (1964, p.38): não há atitudes diferentes a se tomar diante de obras geniais e obras ruins? Não é certo que quando a análise falha, talvez a intuição tenha o seu lugar? Não é necessário recorrer à intuição quando se trata de uma obra medíocre. Na obra genial, há lugar para a análise em segundo plano, e servindo como assim dizer por tapete entre os vários momentos em que a intuição terá conseguido arrancar desse todo em que a análise não penetra.

Pois no fato de constituir um todo está a suprema afirmação da genialidade, e não é falando em particular de nada de quanto lá está objetivamente transportável para a mesa da dissecção, que se pode atingir o âmago da sua estrutura, revelar o seu verdadeiro sentido, comunicar a sua personalidade. (MONTEIRO, 1964, p.38).

            Por vezes, toma-se o romance como ponto de referência, considerando apenas um dos seus aspectos. Sobre isto, argumenta Monteiro (1964, p.40): consiste em aberração do espírito crítico submeter o essencial da arte a algum dos seus caracteres secundários. Desvios de exigências extraliterária. Por conta do romance se constituir arte que segue a expressão da vida corre o risco de ser julgado não como arte, mas “como se fosse antes ou acima da arte, alguma dessas muitas coisas que tem de ser a matéria-prima romanesca”. Deve-se considerar que “o romance lida com toda a espécie de problemas, faz intervir, implica, alude a quantas idéias constituem o substratum intelectual da época”.
            Devemos considerar, por fim, encaminhando ainda o pensamento de Monteiro (1964, p.41) que é por atrair ‘paixões de idéias’ que o romance atrai toda a espécie de confusões. No tudo que cabe ao romance vai muita matéria impura que, afinal, é inseparável da criação do romance como o vinho é da uva. O crítico não deve julgar segundo idéias políticas ou fé religiosas, mas “segundo o seu sentido de artista-crítico”. Seria pseudo-crítico quem se importa apenas com o realce das suas idéias ou à crença que professa e não à arte.

Referências

LUBBOCK, P. A técnica de ficção. Trad. Octávio Mendes Cajado. São Paulo: Cultrix, 1976.

MONTEIRO, Adolfo Casais. O romance: teoria e crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

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