segunda-feira, 30 de junho de 2014

A DIALÉTICA DA LIBERTAÇÃO NA POESIA DE MANUEL BANDEIRA

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará: 

GATTO, Dante; MACHADO, Rosineide Alves. A dialética da libertação na poesia de Manuel Bandeira. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, p.7, 09 jul. 2014.

(Escrito em parceria com ROSINEIDE ALVES MACHADO)

As duas primeiras décadas do século XX apresentaram novos paradigmas à humanidade. Ruiu a promessa liberal. A Grande Guerra e a Revolução Russa são bastante significativas do contexto. O niilismo pairava no ar. Pode-se dizer que estávamos no terceiro tempo das revoluções burguesas: o Renascimento significou a grande revolução cultural que inaugurou de vez o mito do individualismo moderno, rompendo a cadeia da meritocracia divina; o século XVIII consolidou a vitória da burguesia com a revolução econômica (revolução industrial), política (revolução francesa) e estética (romantismo). No começo do século XX tivemos uma revolução mercadológica. A mercadoria perdeu um valor em si e se inseriu no mercado com o valor de consumo. Foi nesse contexto que surgiu a inflação. Época em que a velocidade da máquina rompeu com os paradigmas da velocidade do corpo. Neste novo contexto não cabia mais o ritmo do mundo clássico em que a forma poética se submetia a um automatismo dado pela metrificação do verso.
            O nacionalismo desde sempre foi uma bandeira da literatura brasileira: idealista no romantismo, pessimista no realismo, crítica no modernismo. O lirismo romântico se, por vezes, teve arroubos dionisíacos acabou normatizado por prerrogativas práticas: o bom poeta deveria ser um patriota antes de tudo e os aspectos regionais ganharam utilidade em si.
A poesia parnasiana, entre um paganismo artificial e um racionalismo moral implicou um lirismo ocasional (as rimas aqui não têm segundas intenções). Foram os simbolistas que ao inaugurarem a perspectiva do inconsciente no plano sentimental criaram condições propícias para o lirismo modernista do qual “Poética” de Manuel Bandeira talvez seja o exemplo mais exemplar. Era preciso livrar a poesia das vestes que lhe imputaram a civilização. Mário de Andrade entendeu bem a situação, conforme ele contou se referindo a uma escrava que não era a Isaura. Com a sua herança, os vastos rebanhos que somou do testamento tirado de Abel, Caim vestiu a mulher com um velocino alvíssimo, uma outra indumentária, e os séculos seguintes só fizeram crescem os adereços da escrava do ararat: metáfora mariodeandradiana à poesia. É preciso libertá-la, despi-la. E o eu-lírico modernista de Bandeira, farto de comedimentos, dos puristas e dos burocratas do lirismo político, raquítico e sifilítico, para deixar bem marcado o seu repúdio, retomou o mais acerbo dionisismo, libertando-se de todas as palavras, e todas as construções, de todos os ritmos.
Mas toda libertação tem seu preço. Bandeira foi buscar palavras despidas da profundidade do habitual universo poético, mas não porque tenha ampliado o universo poético como fez ou outro Manuel, o de Barros. Foi porque ele percebeu que as palavras não tinham mais nenhuma essencialidade, que estavam a serviço de outras prioridades do mundo pragmático.
O ritmo adequado a tal estado de coisas não se efetivava com o verso regular em estrofes uniformes. Carecia da dissonância da dessimetria do verso, do brusco enjambement, das anáforas e paralelismo a altura do protesto enfático e descomedido.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


A dialética da poesia modernista demonstraria, no entanto, que toda liberdade implica em requintes de aprisionamento que suscitam novas inquietações do espírito. E se há retornos nesse processo, como os quase bilaquianos sonetos que Bandeira escreveria posteriormente, trazem em si a eternidade que Nietzsche previu: a seletividade do eterno retorno. 

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