domingo, 4 de maio de 2014

DA ARTE LITERÁRIA

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. Da arte literária. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 11, 07 maio 2014.

O amor à literatura prescinde de uma atividade básica: a leitura. Penso que ainda é assim, apesar do cinema que se ancora na literatura e nasce da escrita, porque, também, implica um texto escrito orientador. Mas próximo ainda da literatura está o teatro, cuja espacialização da cena viva, no cenário, na frente do expectador, fica mais próximo, também, do texto escrito. Mas ambos, cinema e teatro, se efetivam para além do texto: na projeção fílmica e no espetáculo, respectivamente. A literatura implica o texto e o leitor e se consuma, por fim, por meio da leitura. 
Ora, literatura é arte, não é? Esta é uma questão que tem secado muita tinta de teóricos e escritores. Não vamos adentrar ainda na especificidade desta condição artística, basta saber, em princípio, que literatura é arte da palavra. Se a pintura se sustenta em tela e tinta; se a escultura carece de pedra ou gesso etc.; se a música se apoia no som em diversas modalidades instrumentais, a literatura não se faz sem palavras: um arranjo de palavras, a exploração de um sentido particular: a conotação, a metáfora, a intertextualidade e a paródia etc sem que tudo isto e muito mais, no entanto, garantam um bom resultado.
Bem, como dizíamos, literatura prescinde de leitura. Mesmo entre estudantes de Letras há casos de alunos que adentram o curso sem nunca terem lido um livro e não saberem, por exemplo, diferenciarem um poema de um conto. Infelizmente, diga-se de passagem, finalizam o curso não muito diferentes. Há infinitas causa para o afastamento da literatura que extrapolam a mera perspectiva da oportunidade que é a mais explorada pelos que buscam resposta ao problema.
            Muito se fala em hábito de leitura, mas devemos concordar que hábito não faz o leitor, na medida em que a leitura só é significativa quando acompanhada de motivações outras, além da rotina. O hábito pode desencadear o processo, uma vez que não há idade precisa para que o fenômeno literatura se torne significativo.
            Quando digo “significativo” quero dizer ação sobre o ser. Quero dizer “aprender”. A literatura ensina. A aprendizagem, objetivo do ensino, implica mudança de comportamento. Quando somos informados, por exemplo, da necessidade de se escovar os dentes, da escovação correta, do uso do fio dental etc., mas por uma ou outra razão não efetivamos esta prática não aprendemos, não estamos educados. Fomos informados, mas não aprendemos. Uma questão de educação, não é?
            A arte opera uma revolução por dentro que está, evidentemente, na base das revoluções para fora. Talvez a mais significativa interpretação da situação esteja na tensão humana que se opera entre o Ter (material) e o Ser (espiritual). Há registros do homo sapiens de 200.000 anos na face do planeta Terra e construímos, materialmente, muita coisa. Assim foi necessário, mas este crescimento foi acompanhado de forte espiritualidade. Ora, o homem que faz é o mesmo que reflete espiritualmente sobre o fazer. E as mulheres superaram, e ainda superam, sua condição de dependência, bem como todas as minorias conquistaram direitos inimagináveis, colocando em xeque os mais arraigados dogmas da sociedade patriarcal.
            A informação que a literatura nos oferece é, digamos assim, de ordem essencial e implica canais de sensibilidade para o seu efetivo aproveitamento. O lirismo se volta para si mesmo e lança um novo olhar, um estado de coisa, uma contradição íntima que vai suscitar nos leitores questionamentos que serão operados pela sensibilidade. O ficcionista arma um enredo, insere personagens, inventa uma situação, cria um universo e tal mentira joga luz numa, mais uma vez, contradição humana que, por vezes, o real, a verdade, não consegue alcançar. Parece mágica. É arte.

Não ficamos impunes a uma obra de arte, não saímos ilesos dos seus tentáculos, e esta é sua condição básica. Um texto que não crie latências, que não deixe alguma coisa incubada no receptor não é arte literária por mais bem elaborado que tenha sido. Está nesta confecção um segredo que diferencia o artista e que escapa à crítica e, talvez, seja a tentativa de ordem na desordem (Cosmos e caos constantemente revisitados) que se apresenta o mistério essencial da condição humana.

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