terça-feira, 13 de maio de 2014

DA ARTE LITERÁRIA II

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. Da arte literária II. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 3, 14 maio 2014.



Até o século XVIII, o vocábulo literatura significava instrução. Ao que chamamos aqui de literatura stricto sensu era tratado pelo termo poesia, quando em verso, e eloquência ou retórica, quando em prosa. Mas a partir do século XVIII, o termo literatura passou a designar tanto produções em verso ou em prosa e poesia mais freqüentemente se diz das produções em verso.
            Partiremos dos conceitos formulados nas eras clássica e moderna, conforme divisão estabelecida por Amora (1973), a saber: a era clássica vai da Antigüidade Clássica até o século XVIII, e a era moderna do romantismo até nossos dias.
 A era clássica comportava um conceito amplo de Literatura (lato) em que estabelecia a realização dos preceitos estéticos da invenção, da disposição e da elocução. Estas três operações clássicas da arte de escrever foram criadas pelos sofistas. A invenção trata da escolha do assunto; a disposição encarrega-se de coordená-lo numa ordem lógica e atraente, dando ao trabalho movimento e unidade; a elocução implicava correção, clareza e harmonia da língua. Por tal definição notamos que qualquer obra, fiel tão somente a esses preceitos de assim bem escrever, seria considerado literatura, quer seja um livro de poesia ou um tratado de filosofia.
Havia, ainda, na era clássica, um conceito restrito de literatura (stricto): é a arte que cria, pela palavra, uma imitação da realidade. Já se observa uma substancial correção em relação ao anterior: não é a forma, mas a natureza do conteúdo da obra que identifica a arte literária. Encontramos, aqui, a famosa teoria da imitação (mimese) dos clássicos, notadamente Aristóteles.
A imitação não significa cópia fiel da natureza, mas é outra espécie de criação calcada direta ou indiretamente naquela. Nesta imitação há espaço para a fantasia, atenuando ou exagerando o imitado.
Na era moderna, em sentido lato, a palavra literatura é tomada como o conjunto da produção escrita. É óbvio que tal conceito peca em toda sua extensão, pois, de início, não individualiza sequer aquilo que pretende definir. Em sentido stricto, arte literária, segundo Amora (1973, p. 24), “é, verdadeiramente, a ficção, a criação duma supra-realidade com os dados profundos, singulares e pessoais da intuição do artista”.
            A supra-realidade esbarra no caráter da verossimilhança (novamente Aristóteles). O verossímil na obra literária escapa dos dados oferecidos pela realidade e se realiza dentro da estrutura da obra.
            Há de se acrescentar: a arte se produz por intuição. Ora, a densidade do conhecimento intuitivo se manifesta no talento e no gênio.
            Temos nesse conceito, dois elementos essenciais: a ficção ou supra-realidade (natureza do conteúdo) e a intuição do artista (condição para a criação dessa supra-realidade).
            Ainda há a matéria-prima pela qual se opera essa ficção e se manifesta a intuição artística: a palavra. Conforme Amora (1973, p. 96):       
           
A palavra, em literatura, não tem o mesmo valor da palavra na vida corrente. A palavra na vida cotidiana ou nas atividades não literárias (mesmo quando artísticas, de outro gênero) tem valor utilitário. Na literatura, tem valor ontológico, se podemos assim dizer. Sendo arte-da-palavra, faz a literatura do seu meio de expressão seu próprio fim. Quando se abusa desse processo, caímos na má literatura, no verbalismo, hipertrofia da palavra. Mas nunca a palavra pode ser, em literatura, simples objeto de uso, simples meio de comunicação. E não pode porque exatamente nasceu a literatura da encarnação da vida no verbo.
        
Arte literária é, portanto, a ficção ou criação de uma supra-realidade pela intuição do artista, mediante a palavra expressivamente estilizada.
A literatura, entendida como objeto da teoria da literatura,

parte do conjunto da produção escrita e, eventualmente, certas modalidades de composições verbais de natureza oral (não-escrita), dotadas de propriedades específicas, que basicamente se resumem numa elaboração especial da linguagem e na constituição de universos ficcionais e imaginários. (SOUZA, 1986, p.44). (Negritos nossos).

            Com o método, o objeto da pesquisa se aprofunda e se refina. É, pois, imperfeito o método que admite a literatura como totalidade da produção escrita. Mais correto é o método que limita o objeto a uma produção com critérios específicos. É o que chamamos de literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária. Implica, portanto: “propriedades específicas” e “elaboração especial da linguagem” (chamado por alguns de desvios organizados na linguagem), e “constituição de universos ficcionais ou imaginários”.
            Compagnon (2010, p.44-45) argumenta, ainda, que os textos literários são aqueles “relativamente independente do seu contexto de origem”. O contexto de origem restitui o texto a não literatura, “revertendo processo que faz dele um texto literário”. O contexto adequado para o “estudo literário de um texto literário não é o contexto de origem desse texto, mas a sociedade que faz dele um uso literário, separando-o do seu contexto de origem”. A crítica biográfica ou sociológica, ou a que explica a obra pela tradição literária (Sainte-Beuve, Taine, Brunetière), todas elas variantes da crítica histórica, podem ser consideradas exteriores à literatura.
O posicionamento de Eagleton (s.d., p. 220) talvez seja o mais oportuno para fecharmos o assunto aqui nesta questão sempre inacabada:

é que seria mais útil ver ‘literatura’ como um nome que as pessoas dão, de tempos em tempos e por diferentes razões, a certos tipos de escrita, dentro de todo um campo daquilo que Michel Foucault chamou de “práticas discursivas”, e que se alguma coisa deva ser objeto de estudo, este deverá ser todo o campo de práticas, e não apenas as práticas por vezes rotuladas, de maneira um tanto obscura, de “literatura”.

Referências

AMORA, Antônio Soares. Teoria da literatura. 10. ed. São Paulo: clássico-científica, 1973.
COMPAGNON, Antoine. A literatura. In: O demônio da teoria: literatura e senso comum. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010. p.29-45.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, s.d.

SOUZA, Roberto Acízelo. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 1986. Série Princípios, 46.

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