quinta-feira, 22 de maio de 2014

A MORAL DO RESSENTIMENTO EM NIETZSCHE

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. A moral do ressentimento em Nietzsche. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 7, 28 maio 2014.


A crítica nietzscheana à metafísica tem dois sentidos: o ontológico e o moral. Em O Nascimento da Tragédia, Dioniso era definido pela sua oposição a Sócrates, muito mais do que pela sua aliança com Apolo. Sócrates julgava e condenava a vida em nome dos valores superiores (aqueles valores que a própria cultura havia instituído), mas para Dioniso a vida não devia ser julgada, afinal, ela é bastante justa e suficientemente santa por si mesma. À medida que Nietzsche avança filosoficamente, a verdadeira oposição aparece-lhe: “o crucificado”. (DELEUZE, 1994. p.29).
O filósofo do eterno retorno desenvolvera uma luta acirrada contra o cristianismo. Chama-o de platonismo para o povo uma vez que o mundo terrestre é entendido como provisório e aparente, em detrimento do outro mundo, autêntico e verdadeiro. Para Nietzsche só existe um mundo, este, rico de cores e movimentos, em perpétua mudança, e o homem participa dessa mudança. O cristianismo se constitui de uma forma acabada de subversão, apoiada em dogmas e crenças, que impõe, como virtude, a resignação e a renúncia. O mal disto está na negação da vida.
O sentido do martírio é o que diferencia Dioniso do cristão. Naquele, a vida mesma, sua eterna fecundidade e retorno condicionam o tormento e a destruição. No outro caso, do cristão, o sofrer, o crucificado como inocente, vale como objeção contra a vida, como fórmula de sua condenação. O homem trágico é forte na medida em que afirma o mais acerbo sofrer. O cristão nega ainda a sorte mais feliz sobre a terra: ele é fraco, pobre, deserdado o bastante, para, em qualquer circunstância, ainda sofrer com a vida. Se Dioniso é uma promessa de vida, “o deus na cruz é uma maldição sobre a vida, um dedo apontando para redimir-se dela”. (NIETZSCHE, 1987b, p.174).
A revolta dos escravos da moral, afirma Nietzsche, na Genealogia da Moral, começa quando o próprio ressentimento se torna criador e chega a produzir valores: o ódio encontra compensação numa vingança imaginária. A moral aristocrática, por sua vez, “nasce de uma triunfal afirmação de si mesma”. (MANN,1944, p. 119). A moral dos escravos inverte o golpe de vida afirmador: “opõe de início um ‘não’ a tudo que não é seu. Este ‘não’ é o seu ato criador.” O mundo exterior converte-se no ponto de partida dos valores, e não o mundo interior: a ação torna-se reação.
Para Nietzsche, o hábito do desprezo do olhar altivo e superior, admitindo-se que falseie a imagem do desprezado, ainda fica muito longe da deformação violenta que o ódio recalcado e o rancor convertem o adversário. “De fato, no desprezo se acham mescladas demasiada negligência, demasiada ligeireza, desatenção e impaciência, mesmo demasiada alegria consigo, para que ele seja capaz de transformar seu objeto em monstro e caricatura”. (NIETZSCHE, 1987a, p.35).
Nietzsche se utiliza do exemplo da aristocracia grega. As palavras que lhes servem para diferenciá-los da arraia miúda estão cobertas de uma “espécie de piedade”, de indulgência e, assim, aproximam-se do termo “infeliz”. Os “bem nascidos” tinham o sentimento de ser os “felizes”. “Eles não tinham necessidade de construir artificialmente sua felicidade” comparando-se aos seus inimigos, ensoberbecendo-se, gabando-se a si próprios; assim, também, na sua qualidade de homens completos, transbordantes de vigor e, portanto, necessariamente ativos, “não sabiam separar a felicidade da ação”. (NIETZSCHE, 1987a, p.35).
Portanto, ao passo que o homem aristocrático é franco e confiante em si próprio, o homem do ressentimento não é nem franco, nem ingênuo, nem leal para consigo mesmo. Sua alma não olha de frente, seu espírito ama os recantos, as evasivas e as portas secretas; tudo o que se esquiva o encanta, aí encontra ele seu mundo, sua segurança, seu repouso; sabe como ninguém conservar o silêncio, não esquecer, esperar, diminuir-se provisoriamente, humilhar-se. (NIETZSCHE, 1987a, p.35).
Uma raça composta de homens do ressentimento, afirma Nietzsche, mostrar-se-á afinal mais sagaz do que qualquer raça aristocrática e venerará muito mais a prudência: fará dela uma condição de existência de primeira ordem, ao passo que entre os homens nobres, a prudência adquire comumente certo verniz de luxo e de requinte, concedendo-lhe importância muito menor do que o “funcionamento dos instintos reguladores inconscientes”. O resultado é a temeridade irrefletida que vai de encontro ao perigo, que se joga sobre o inimigo, ou ainda essa “exaltada impulsividade na cólera, no amor, na veneração, gratidão, vingança, na qual se têm reconhecido os homens nobres de todos os tempos”. (NIETZSCHE, 1987a, p.36-37).

Referências

DELEUZE, G. Nietzsche. Trad. Alberto Campos. Lisboa: edições 70, 1994.
MANN, H. O pensamento vivo de Nietzsche. 2. ed. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Martins, 1944.
NIETZSCHE, F. W. Genealogia da moral. Trad. de Paulo Cesar Souza. São Paulo: Brasiliense, 1987a.
NIETZSCHE, F. W. Sobre o niilismo e o eterno retorno. In: ___. Obras incompletas. São Paulo: Nova cultural, 1987b. 2v. (Os Pensadores). 

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