segunda-feira, 26 de maio de 2014

A INTERPRETAÇÃO NEOCLÁSSICA DA POÉTICA DE ARISTÓTELES

(Escrito em parceria com Bruna Marcelo Freitas)

Tanto no Renascimento Italiano, como no Classicismo francês, a Poética foi interpretada sob as pressões ideológicas. A literatura do século XVIII se, por um lado, manifestava-se infensa aos exageros barrocos, por outro, era, também, adversa à pressão avassaladora do racionalismo burguês. Isto resultou o retorno às prerrogativas humanas do Renascimento, como única opção (processo dialético), combinada à crise de confiabilidade nas instituições (Rousseau), despertou o desejo de fuga para a natureza. Resulta disto o resgate da saudosa Arcádia, lugar da Grécia antiga, habitada por pastores, verdadeiro paraíso na terra. A imitação da natureza tornou-se o suprassumo dos valores estéticos. Em outras palavras, o conceito de mímesis ficou reduzido e limitado à representação da natureza.
Aristóteles não chegou a definir precisamente o termo, mas deixou indicações: mímesis consiste na imitação do homem com seus sentimentos e paixões sem se reduzir a uma cópia servil, acentuando os traços essenciais e permanentes. A crítica do século XVIII entendeu nisto a supressão do grosseiro ou desagradável e idealizou o modelo a ser seguido. Para o espírito neoclássico não tinha nenhum valor a ideia de originalidade que se tornaria tão importante aos românticos e aos modernos.
Vamos alimentar essa reflexão encaminhando o pensamento aristotélico.

Como aqueles que imitam imitam pessoas em ação, estas são necessariamente ou boas ou más (pois os caracteres quase sempre se reduzem apenas a esses, baseando-se no vício ou na virtude a distinção do caráter), isto é, ou melhores do que somos, ou piores, ou então tais ou quais, como fazem os pintores. (ARISTÓTELES, 2005, p.20).

O caráter maniqueísta da posição aristotélica é compreendido dentro da conjuntura da realidade clássica. A complexidade do mundo moderno, como sabemos, romperá com esta fórmula (bem/mal) tão facilmente distinta, implicando posições mais dialéticas em relação à complexidade do ser humano.
         Aristóteles, em outro momento, estabelece três maneiras de imitação: “ou reproduz os originais tais como eram ou são, ou como os dizem e eles parecem, ou como deviam ser”. (ARISTÓTELES, 2005, p.48).
A questão da verossimilhança é inerente à literatura, já que “a obra do poeta não consiste em contar o que acontece, mas sim coisas quais podiam acontecer, possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade.” (ARISTÓTELES, 2005, p.28).  Argumenta, ainda: “[…] se o poema encerra impossíveis, houve erro; mas isso passa, se alcança o fim próprio da poesia […] e assim torna mais viva a impressão causada por essa ou por outra parte do poema”. (ARISTÓTELES, 2005, p.48). Ora, quem manda é “o fim próprio da poesia”. Entender-se, portanto, possibilidade à criação. Aliás, Aristóteles, ainda no IV capítulo da Poética, tratando da origem da poesia, já havia se aproximado do problema:

Se a vista das imagens proporciona prazer é porque acontece a quem as contempla aprender a identificar cada original; por exemplo, “esse é Fulano”; aliás, se, por acaso, a gente não o viu antes, não será como representação que dará prazer, senão pela execução, ou pelo colorido, ou por alguma outra causa semelhante. (ARISTÓTELES, 2005, p.22).

A verossimilhança — a partir do Romantismo — passará a se realizar dentro do universo ficcional, sendo submetida à destreza do escritor.
Os sistematizadores do classicismo francês, no entanto, em obediência ao princípio da verossimilhança, como já anunciamos, excluíam da literatura tudo que se apresentasse insólito, anormal ou capricho da imaginação. Aristóteles, no entanto, é claro em suas colocações:

Quando plausível, o impossível se deve preferir a um possível que não convença. As fábulas não se deve compor de partes irracionais; tanto quanto possível, não deve haver nelas nada de absurdo, ou então que se situe fora do enredo […] quando, porém, o poeta assim o faz [o absurdo] e ela parece mais verossímil, é aceitável, apesar do insólito; se não, mesmo na Odisséia, evidentemente não seria de tolerar o que há irracional no desembarque [Os feácios depõem Odisseu e sua bagagem na costa de Ítaca, sem que ele desperte.], se o houvesse escrito um autor de inferior categoria; o Poeta, porém, deleitando-nos com os outros encantos, escamoteia-nos a absurdeza. (ARISTÓTELES, 2005, p.48).

Será, pois, a destreza do poeta que tende a tornar verossímil o insólito. Aliás, algumas páginas antes, Aristóteles já havia se aproximado da questão quando, reportando-se a Agatão, lembra que “é verossímil que aconteçam muitas coisas inverossímeis”. (ARISTÓTELES, 2005, p.39).  

Referências


ARISTÓTELES. Poética. In: ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. Traduzido por Jaime Bruna. A poética clássica. São Paulo: Cultrix, 2005. p.17-52.

Um comentário:

  1. Aristóteles é esclarecedor mesmo. Leitura imprescindível. Bom artigo. Parabéns.

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