sábado, 8 de março de 2014

um conto: SÉTIMO ANDAR

Sabia que não deveria tomar o remédio com o estômago vazio, mas foi em frente, porque qualquer efeito seria mais suportável do que aquela subida melancolia que a tomava. Já estava no carro, depois da jornada diária de trabalho.
Enquanto dirigia para casa de certa forma até se sentia confortável pela falta de tempo. Chegaria a casa e contaria os minutos no chuveiro. Os cabelos estavam ressecados. Aproveitaria, nesta noite, para demorar-se cuidando deles. Aproveitou o sinal fechado para olhar-se no retrovisor interno. Estava feia. Na verdade, não sentira forças para nenhuma reação. Não se importava nenhum pouco com a aparência.
Foi quando se lembrou de conversar com a amiga a quem dera carona.
Sorriu.         
A outra moça sorriu também e ela sentiu uma proximidade sufocante.
Conversaram, então, sobre o cotidiano e amenidades e ela foi se acalmando. Moravam no mesmo prédio, nasceram no mesmo ano, estiveram na mesma escola. O casamento, no entanto, as fazia diferentes: ela se casou pouco depois da faculdade, a outra se salvará. Sorriu.
Sorriram.
Foi fazendo analogias sem se dar conta: o marido era dentista, a outra tinha dentes lindo e ela se sentia feia. Ousou perguntar sobre os dentes dela. Sorriram.
Os filhos que ambas não tiveram, de repente, estavam ali, aninhados no banco traseiro. Eram crianças lindas e quase iguais. Seu filho teria a robustez máscula do marido. Lembrou-se das marcas de expressão e o queijo quadrado. O olhar da criança hipotética a incomodou: estranhamente, tinha o olhar da outra moça. Ela se sentia feia, mas a outra era linda.
Sorriram. Dentes lindos. Os seus dentes, no entanto, eram muito pequenos. A outra não, tinha dentes grandes e muito, muito brancos. Era evidente que não fumava. Ela também não, mas tinha dentes de fumante... a pele de fumante. Antes tivesse se perdido no vício. Afastou o pensamento incômodo.
Olhava já para a outra com um certo ciúmes. Perfeita em tudo. Não casará, no entanto. Nem carro tinha. Isto, de repente, pareceu-lhe uma estranha completude e somava à perfeição dos demais detalhes. A outra sorria e uma calma oleaginosa ameaçava impregnar tudo.
Caminharam juntas até a portaria do prédio. Ficaria enfim livre daquela felicidade, daquela calma, daquela proximidade. A outra subiu, enquanto ela ficou conversando com o porteiro que a chamou pelo primeiro nome sem cerimônia e disse que o marido subirá há pouco. Ela ficou olhando para aquele rosto sofrido, o movimento mole dos lábios mostrando dentes amarelos e esparsos e, depois, subitamente, ela o abraçou e chorou.
O velho como se tivesse completa compreensão daquela situação inusitada, acompanhou-a até o saguão. Ela esboçou um pedido de desculpas, mas ficou apenas olhando o seu meio sorriso, enquanto a porta do elevador se fechava. Ficou paralisada como quem tivesse perdido a consciência da própria vida.
O elevador subiu até o sétimo andar como que guiado por algum chamado indecifrável e ela desceu como se não soubesse que morava no quarto andar. Acomodou-se na sacada do corredor, agora vazio, que dava para os apartamentos e ficou, apoiada nos cotovelos, olhando a cidade lá embaixo.
As pessoas formigavam para suas casas, bares, restaurantes... com a explicação de tudo, quer os cabelos fossem ressecados ou perfeitos. Afinal, a vida deveria doer em paz. Sorriu da dificuldade que estava em entender os próprios sentimentos, mas tentou se acalmar porque isto deveria ser uma coisa muito normal.

Quando deu por si estava cara a cara com o marido que a olhava assustado e constrangido. Ela não entendeu nada e ele foi vencendo o constrangimento enquanto desciam mudos para o quarto andar. 

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