domingo, 16 de março de 2014

Um conto: FOI AQUI

Quando acordou no dia seguinte, foi a primeira lembrança que lhe bateu na consciência. Repetiu para si mesmo: “Foi aqui”. Havia um acento inédito nessas palavras. Levantou-se e não pensou mais no assunto. No dia anterior, voltando para casa, de carro, deu com a inscrição no muro recentemente caiado. “Foi aqui”. Letras garrafais, trêmulas... “O que terá acontecido ali?” Riu alto o carona. Ele riu também, dando o assunto por encerrado.
Acabou por voltar pelo mesmo caminho no segundo dia. Estava sozinho desta vez. Os dias que se seguiram também. Não mais sorria, no entanto.
Lá pelo décimo dia, o mesmo amigo vinha com ele em silêncio e estranhou o fato dele diminuir a velocidade naquele ponto do caminho, mas não disse nada. Passaram-se alguns dias e ele resolveu tomar uma cerveja no bar Independência no outro lado da avenida, próximo à perturbadora inscrição. Sentou-se à mesa, na calçada, mas não se sentiu confortável. Tomou uma cerveja, sozinho e voltou para casa, taciturno.
O bar Independência tinha mesas dispostas na parte superior, exatamente sob a construção que exibia duas portas de ferro, grandes, abertas para a rua, a atender os passantes. Construção modesta. O garçom por vezes esquecia os poucos fregueses lá em cima. Era preciso então gritar e lá vinha ele, escada acima, equilibrando garrafas e copos. Pois bem, ele foi aninhar-se lá em cima. Tinha uma vista privilegiada para o muro que portava a referida inscrição. Tomou duas cervejas, vagarosamente. A segunda até ficou pela metade. Esquentou.
A mulher estranhou o atraso e o cheiro de cerveja. O primeiro atraso depois de tantos anos juntos... Ele apenas respondeu um seco “não foi nada”. Passou.
Dormiu mal. Sonhou imagens inteligíveis. Resolveu passar pelo local indo para o serviço, apesar do desconforto que isto significava por causa do trânsito. Na volta, à tarde, procurou a sua mesa no bar Independência. O dia fora de espera e angústia em que havia esquecido de práticas rotineiras. Os colegas olharam-no com assombro. O garçom trouxe-lhe a cerveja... duas, três, quatro. Desta vez a mulher reclamou, quando chegou em casa. Então ele contou que foi beber. A conversa foi longa, mas ele foi monossilábico todo o tempo. Ela falou do casamento, da morte do pai, da bebida, da companhia dele, para ele ligar quando fosse atrasar, para levá-la ao bar. Passou.
Os dias se seguiram bastante iguais. Procurou não parar no bar. A inscrição estava lá, vermelha, viva.
Seu colega, aquele mesmo da carona do primeiro dia, sem mais nem menos desandou a falar do assunto, no escritório, e conquistou o interesse de todos. Levantaram infinitas conjecturas para o que teria acontecido ali: possibilidade de um amor desfeito; uma conquista inesperada; uma idéia brilhante, esdrúxula; sexo ocasional, violência etc. Ele se sentiu muito mal. Engoliu tudo aquilo como uma enorme heresia. Sentiu-se invadido, apesar de que não falavam dele, nem sequer supunham as suas inquietações. Fugiu para a sua mesa. No final do expediente, resolveu dar uma paradinha no bar Independência. Foi uma grande surpresa quando chegou lá em cima e encontrou todas as mesas ocupadas. Chamaram-no. Eram os colegas da repartição. Puxaram uma cadeira para que ele se acomodasse. Falavam da inscrição, riam muito, sem perceber o extremo desconforto que ele não conseguia reprimir. Um a um foram saindo, com o avançar da noite, e ele ficou até que não restasse mais ninguém.
A mulher recebeu-o, abatida. Chorou.
Ele não foi trabalhar no dia seguinte.
Numa sexta-feira chegou em casa já de madrugada, bêbado, cheirando perfume de mulher. Ela não disse nada. Nenhum esboço de defesa apesar de ter sido o perfume de alguém que o ajudou a descer as escadas do bar independência.
Recebeu uma advertência por escrito da diretoria. Chamaram-no para conversar, mas ele ficou maravilhado com o vermelho da almofada de carimbo na mesa do chefe e não disse nada.
Numa manhã, desviou-se do caminho e estacionou em frente do muro pichado. Nunca tinha estado tão perto. Percorreu os dedos sobre a tinta vermelha e foi tomado por um estranho assombro. Chorou longamente, como nunca havia feito, nem nos momentos mais trágicos da sua vida. O garçom do bar Independência achou melhor socorrê-lo, mas foi inútil. Então ele pediu que lhe trouxesse uma cerveja e ficou sentado no chão, sob o sol forte e dormiu recostado a uma árvore.
Começou a apresentar sinais de instabilidade emocional. Afastaram-no do trabalho para tratamento. Passou a beber com assiduidade. A mulher resolveu deixá-lo numa manhã em que ele parecia totalmente curado. Ela preparou as malas, recolheu objetos, levou-os ao carro, sem que ele desse conta de nada: estava absorto com uma caixa de lápis de cor. Quando ele se deu conta que estava sozinho, achou até bom. Teria todo o tempo do mundo para fazer o que queria. Foi caminhando ao bar Independência. O garçom, fechado o bar, levou-o para casa num carro emprestado por um freguês.
Três dias depois ele foi internado num Hospital público com insolação, desidratação e catatônico. Viveu ainda alguns anos, indiferente ao mundo a sua volta. Raras vezes, numa excitação nervosa, repetia as palavras “foi aqui”.

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