quarta-feira, 26 de março de 2014

Um conto: DISCURSO DE UM DEFUNTO

            Ele já estava no caixão, no cemitério, quando começou a falar. Foi um pandemônio, um “Deus nos acuda”.
“Perdoem-me, preciso falar, ainda que morto”.
O fato é que ficaram muito, muito poucos para ouvi-lo e alguns corriam, mas depois, passado o susto voltavam para, por vezes, fugir novamente. O ritmo da fala do morto, no entanto, não se abalava à gritaria. A viúva desmaiou sem que ninguém a socorresse, nem mesmo a filha apalermada que parecia mesmo com impulsos de abraçar o defunto. Ele, no entanto, não dava conta da audiência e falava com voz fraca, mas firme.
“O sentido da sobrevivência, combinada com a necessidade intrínseca da convivência estabelece aquilo que chamamos de ética. O nossos valores… renunciá-los seria a despersonalização… a desindividuação… destruir as particularidades que nos caracterizam como fenômeno único. Somos o que acreditamos. Seguimos um norte: a vida nos impõe. A vida… A Vida! Amigos, inimigos, ouçam-me: estou vivo! Estou vivo e sou assim! Sou Eu!”
Não apontava ninguém precisamente, mas os olhos brilhavam com tal fulgor que imobilizava os que conseguiam não fugir da situação.
            “No entanto, a iniludível, a indesejada das gentes… Ah… convivemos com ela a partir do momento que nascemos. Um temor cego que, no entanto, não impede que a força do meu braço arroste o inimigo e abrace os amigos”.
            “Há nas nossas vidas um momento único em que nos deparamos frente a frente com a morte. Tudo, nesse rápido instante, passa a fazer sentido. Revemos, então, todos os nossos dias numa vertiginosa seqüência de flashes. O homem mais insignificante, mais prosaico, mais absolutamente alienado percebe a sua grandiosidade, se torna verdadeiramente Deus! Eis a vida. Neste lúcido momento, todos os seus caros valores, arduamente carregados montanha acima, rolam montanha abaixo, mas, ao contrario de Sísifo, ele sorri. Ele se tornou bastante forte e bastante grande para, como um Voltaire divino, rir de tudo”.
            “Esse momento que você ainda não viveu, eu vivi! Eis-me, pois, a rir de tudo. A sofreguidão dos que ficaram, sofrendo e chorando até a redenção. A mão que me matou… A boca que beijei… Ah… tudo é nada!”
            “Mas não se pode ser morto por completo quando se esteve tanto tempo vivo. Não por vaidade, ou por costume, ou coisa que os valham. Não… Deixe-me que vos diga, que me sobraram alguns anseios de dizer ainda algumas verdades por mais que as despreze. Deixa-me que vos diga a única razão que me faz querer voltar a viver pelo menos por um trêmulo momento: o perdão! Sim, o perdão. Perdoar todos os meus inimigos, abraça-los, renunciar a mim mesmo neste momento máximo em que me encontro comigo”.
            “Eis a renuncia, a libertação, a transcendência, a verdade transfiguradas no gosto humano do perdão.”
            De fato, ele, pouco depois, já em casa, recuperando-se, juntamente com a esposa e a filha, não dava conta de lembrar dos detalhes do discurso. Foram os menos assustados, não necessariamente os mais próximos, que reconstituíram as palavras do morto, no bar do Niversino. Ele participava sorrindo e jurou que nunca tinha lido Manuel Bandeira.

            Ele morreu passados treze anos, de um ataque fulminante, depois de uma rusga com um compadre por causa de uma velha dívida. O enterro foi solene e não teve discurso.

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