domingo, 23 de março de 2014

TRAÇOS DA LÍRICA DE LAURINDO RABELO

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. A linguagem popular ao gosto da burguesia culta na lírica de Laurindo José da Silva Rabelo. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 09 out. 2013.


Laurindo José da Silva Rabelo (Rio, 1826-1864), de origem modesta, mestiço, formou-se em Medicina na Bahia e notabilizou-se como solista de violão e repentista. Publicou em 1853 o volume Trovas, composto no período boêmio de sua vida. São quadras em redondilhas maior (sete sílabas poéticas) e rimas emparelhadas, combinadas à enumerações e metáforas. Bosi (1994, p.114) aproxima-o a Catulo da Paixão Cearense: “[...] contorce aqui e lá a dicção, à procura de uma graça decorativa que possa produzir efeito entre os seus ouvintes cultos ou pseudocultos”.
Lembra muito Casimiro de Abreu na medida da simplicidade e musicalidade dos seus versos, mas sua popularidade não alcançou nossos dias.
Acrescenta, ainda, Bosi (1994, p.115), uma sugestão de estudo: “Creio que a sua obra pode ser uma das balizas para o estudo que a nossa cultura reclama: o das relações entre a linguagem do povo, da classe média e dos grupos de prestígio nos meios urbanos”.
   
AMOR-PERFEITO

Secou-se a rosa... era rosa;
Flor tão fraca e melindrosa,
Muito não pôde durar.
Exposta a tantos calores,
Embora fossem de amores,
Cedo devia secar.

Porém tu, amor-perfeito,
Tu, nascido, tu afeito
Aos incêndios que amor tem,
Tu que abrasas, tu que inflamas,
Tu que vegetas nas chamas,
Por que secaste também?!

Ah! bem sei. De acesas fráguas
As chamas são tuas águas,
O fogo é água de amor.
Como as rosas se murcharam,
Porque as águas lhes falharam,
Sem fogo murchaste, flor.

É assim, que bem florente
Eras, quando o fogo ardente
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo,
Te orvalhou naquele vaso
Que, já foi meu coração.

Secaste, porque esse pranto
Que chorei, que choro há tanto,
De todo o fogo apagou.
Triste, sem fogo, sem frágua
Secaste, como sem água,
A triste rosa secou.

Que olhos foram aqueles!
Quando eu mais fiava deles
Meu presente e meu porvir,
Faziam cruéis ensaios
Para matar-me. Eram raios,
Tinham por fim destruir.

Destruíram-me: contudo
Perdôo o pesar agudo,
Perdôo a pungente dor
Que sofri nos meus tormentos,
Pelos felizes momentos
Que me deram nesta flor.

Ai! querido amor-perfeito!
Como vivi satisfeito,
Quando te vi florescer!
Ai! não houve criatura
No prazer e na ventura
Que me pudesse exceder.

Ai! seca flor, de bom grado,
Se tanto pedisse o fado,
Quisera sacrificar
Liberdade e pensamento,
Sangue, vida, movimento,
Luz, olfato, sons e ar.

Só para ver-te florente,
Como quando o fogo ardente,
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo,
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.

REFERÊNCIA


BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.

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