sábado, 22 de fevereiro de 2014

Um conto: INTERVALO

– Vai mal, muito mal.
– Na verdade, nunca foi bem.
– E o campeonato de 1987?
– Há, é! É verdade. Ganhamos o campeonato aquele ano.
– Nossa, foi bonito, gol olímpico e tudo, bicicleta na trave, teve. Que diabo aconteceu com aquele maluco?
– De quem você está falando?
– Do cara que chamavam de futebol arte?
– Ah, sei. Não sei.
– Não sabe o quê?
– O que aconteceu com ele, ora.
– Ela um cara muito louco, mas tinha alguma coisa de genial nele.
– Era um idiota.
– Tinha muita técnica, muito talento, isto é inegável.
– O que vale ter talento e técnica se não se vencia o jogo.
– Mas venceu.
– Um campeonato, cara, e ele se aposentou com 22 anos.
– 25.
– Futebol tem que ter gol e pronto.
– É, mas para ele o gol não bastava, mas tinha de ser surpreendente, magnifico, espetacular.
– É ridículo.
– O gol óbvio não lhe interessava.
– Gol é gol, e pronto.
– Uma vez ele pegou a bola e correu com ela, com domínio, para o próprio campo.
– Lembro disso, sim.
– Ninguém entendia o que estava acontecendo. De repente, ele voltou-se bruscamente e chutou para o alto fazendo um triângulo isóscele e encobrindo o goleiro.
– É, foi lindo, inesquecível.
– E a teoria do não gol?
– heim?
– Diante do gol óbvio o não gol era mais significativo, dizia ele. E fazia loucuras no campo.
– Tem cabimento isto?
– Diante da certeza do que iria acontecer...
– Nunca se tem certeza do que vai acontecer. Temos que garantir que a coisa aconteça. O jogo está nisto. Técnica e arte para fazer a coisa acontecer.
– O gol, houve vezes, que lhe trouxe frustração.
– Insanidade.
– Deveria se vencer o jogo só na iminência da derrota.
– Mas ficava-se só com a derrota (risos).
– A vida tem de ter desafios.
– Sim, mas não precisamos fabricar desafios. A vida por si só já se faz um grande desafio. Ninguém precisa procurar chifre na cabeça de cavalo.
– Havia outro aspecto que só acontecia no jogo em que ele jogava.
– Frustração?
– Não. Todos jogavam melhor.
– E perdiam.
– Nem sempre perdiam. O que interessava para ele era o espetáculo, não a vitória. (Silêncio) De repente, fiquei nostálgico.
– Nostalgia. A nostalgia daqueles tempos. Quando se é jovem, perder não é tão grave, não é?
– Tem felicidade na derrota. Já pensou nisto? Afinal, é um jogo e o jogo não acaba nos 45 minutos do segundo tempo.
– Não sei. Eu jogo para ganhar. Sabe o que eu acho? Essa tua conversa é coisa de fracassado que fica buscando justificativa para a derrota.
– Não existe derrota. Não perdemos nunca. Só perdemos se nos conformamos com o gol.
– Meu Deus, você pirou. As pessoas querem ver o gol, querem o placar. Ninguém quer saber de arte. Aliás, arte é o gol bonito, entende? E a vida é como o futebol. Tem que balançar a rede, meu irmão.
– Sim, é isto. (levanta-se e ameaça ir embora).
– Aonde você vai agora. Vai começar o segundo tempo.
– É isto, balançar a rede. Eu vou balançar a rede. (Sai).

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