segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TRAGÉDIA E FELICIDADE

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. Tragédia e felicidade. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 29 jan. 2014.

Para Nietzsche, o dionisíaco, no processo trágico, é a instauração de uma nova existência e plenitude, com a qual transfiguramos as coisas e a preenchemos de nossa própria alegria de viver. Sim, alegria de viver, apesar da tragédia. Afirma o filósofo em O crepúsculo dos ídolos, que o fim da tragédia não é desembaraçar-se do medo e da piedade, nem purificar-se duma paixão perigosa, mediante sua descarga impetuosa – como o entendeu Aristóteles – mas realizar-se em si mesmo, acima do medo e da piedade: a eterna alegria que leva em si o júbilo do aniquilamento.
O conceito de felicidade em Mário de Andrade articula-se admiravelmente a sua concepção de modernismo. Ele considerava necessário superar a influência de uma tradição estética européia, conforme se depreende de sua correspondência com Carlos Drummond de Andrade. Tal tradição se sustentava na idéia conformista do mundo-verdade de Anatole France que ele entendia como uma inteligência estagnada que resultava em desinteresse e diletantismo. Era preciso, pois, criar novas perspectivas, próprias, e fixar objetivos que considerassem as particularidades do ser brasileiro, diferente, por natureza, do europeu. Neste sentido, a noção de alegria deveria estar diretamente ligada ao saber do artista moderno, cujo estado de espírito deveria estar apoiado numa crença inabalável na função da literatura como integradora e não, como ocorria na época, uma mera possibilidade de fuga. O prazer surgiria, então, do engrandecimento daquilo que se faz, numa articulação harmoniosa dos opostos, visando a totalidade, religado a tudo que existe.
A concepção de alegria representou ponto de discórdia entre Mário de Andrade e Graça Aranha, no caso, extremamente significativo do que queremos salientar. Se, por um lado, na reflexão sobre literatura, tinham pontos em comum, como a firme intenção de romper com o artificialismo do passado e a necessidade premente de libertar o Brasil da influência castradora européia; por outro, diferenciavam-se quanto à origem e sentidos do raciocínio. Graça partia das idéias para a realidade e Mário, ao contrário, partia da realidade para as idéias. Para o escritor maranhense, a alegria só seria obtida por meio dos valores estéticos, tendo estes substituídos os valores existenciais. Não era uma visão essencialista como a de Nietzsche. Isto é, pensava Graça que na valorização da arte dar-se-ia a eliminação da dualidade eu-cosmos e superar-se-ia o terror e a dor da diferenciação. Assim, o melancólico homem brasileiro seria capaz de participar do todo universal, passando a viver em um estado de inconsciente e perpétua alegria. Não havia, portanto, aquele ingrediente de afirmação. Para Mário, tal postura, contrariava as leis naturais, na medida em que criava uma metafísica que tentava resolver tudo por meio da literatura, representava a negação da alegria. O resultado disto seria nada mais do que uma maneira de ser alegre, sem participar da verdadeira alegria. Coisa deveras doentia. Para completar o desgosto de Mário, o agir esteticamente para Graça Aranha era prerrogativa do intelectual dinâmico, atlético e jovem. A valorização do atleta, bem como o regime da perpétua alegria, condenava o prazer às contingências corpóreas, não cabendo, pois, no seu composto de felicidade, as inquietações, temores e sofrimentos. Graça Aranha revela-se preconceituoso, elitista e incapaz de ver a dor como alegria, como Mário, para quem, como já dissemos, tinha a dor como valor positivo, uma vez que tudo que acontece ao homem passa a ser bom e pode trazer felicidade.

É bem verdade que muitos nunca compreenderiam como que uma disposição radicalmente trágica pode dar origem a um posicionamento afirmativo e à felicidade. Mário de Andrade, sem dúvida, poderia entender perfeitamente a ideia do valor positivo do sofrimento. Para ele, seria uma atitude castradora a separação entre vida e corpo, prazer e dor, morte e vida: o viver deveria ser uma mistura dionisíaca em que as contradições e tensões inerentes à própria vida não devem ser um empecilho à felicidade.

6 comentários:

  1. Lido. Muito bom.

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  2. Fico feliz em ter desencadeado o amor.

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  3. Mário de Andrade é realmente genial! Como separar prazer e dor, corpo e vida? Seria a anulação do ser.
    Excelente reflexão, Dante. Abraço.

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  4. Muito obrigado Prof. Dante pela apresentação e representação da Literatura...

    "A alegria é estranha a uma atitude ativa em face da existência; devo tornar-me ingênuo para me alegrar. Por dentro de mim mesmo, em meu ativismo, não posso tornar-me ingênuo, por isso não posso me alegrar. Só a existência é ingênua e alegre, não o ativismo; este é desoladamente. A alegria é o estado da existência mais passivo, porém desamparadamente deplorável." BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: A Teoria do Romance / Trad. Aurora Fornoni Bernadini, et alli. São Paulo: Editora UNESP/HUCITEC, 1998

    Neste caso podemos pensar da seguinte forma, o mundo (natureza) não se constitui sem a presença humana, e nem o Homem constitui-se sem o mundo. A definição deste mundo reflete no pensar/conhecer do homem em busca de aprendizagem, da alegria, em suma, da vida.

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