segunda-feira, 21 de outubro de 2013

UM POUCO DA POÉTICA DE JOSÉ GUIMARÃES

Este artigo foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. Um pouco da poética de José Guimarães. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 23 out. 2013.



O livro Homenagem às Mulheres de José Guimarães, publicando recentemente pela editora Ideias, é composto por 51 poemas, dispostos num único bloco e em ordem alfabética pelo título. Isto de dispor os poemas em ordem alfabética é um projeto bastante original. Ora, a organização dos poemas formaliza (apolinicamente que seja) o impulso dionisíaco. Neste sentido, o que significa dispô-los aleatoriamente? Na verdade, quando abrimos um livro de poemas é pouco provável que leiamos na sequência proposta pelo autor. Na constituição do todo, liricamente, cada poema é o todo, inclusive pela predisposição lírica do receptor. Sim, predisposição lírica do receptor, aquela comunhão, o pacto que se estabelece ao abrir o livro. Não sei se já se pensou e se consagrou um nome específico ao fenômeno, mas posso desafiar os leitores de poemas que não tenha experimentado este embarque. Afinal, é uma viagem, não é? Há mais um detalhe interessante que cabe neste parágrafo: os poemas são datados, dia, mês e ano, mas, lá estão em ordem alfabética, valendo cada um por si.
O universo lírico de José Guimarães é fortemente idealizado e reduzido (fechado), no sentido estético. O mundo vegetal empresta comparações e metáforas, e, por vezes, personificações e prosopopeias, representando mesmo esse processo redutor. O caos da natureza ganha sentido existencial, e os fenômenos existem para cumprir uma função elevada. A flor se revela a metáfora maior, no caso comparativamente à mulher. O efeito da beleza da flor emprestará significação na analogia ao efeito da beleza feminina. Idealismo extremo, cabe acrescentar.
O fechamento do universo institui alguma coisa mais perfeita. Esse, aliás, foi o argumento de Lukács, tentando explicar uma estética adequada ao mundo, tornado demoníaco (terminologia dele). No caso, ele tratava do romance (A teoria do romance) que viera substituir a epopeia. Está precisava do fechamento e desapareceu quando o mesmo se tornou impossível, uma vez que criamos a produtividade do espírito. A combinação formal, nesse sentido (fechamento), são os paralelismos sintáticos, combinado às anáforas e repetições que emprestam grande musicalidade. Acrescente-se, ainda, a exploração das rimas toantes. As consoantes são por demais utilizadas, também, mesmo sem o metro regular.
Todo projeto poético implica um novo gêneses. Argumentaram muito, neste sentido, tendo como objeto a poética de Manoel de Barros, mas se trata de lugar comum de todo projeto artístico, mesmo porque criação implica um criador. Ora, inevitável repensar os caminhos da humanidade, a vida, no que fizemos dela e do mundo etc., apontado contradições e paradoxos, questionando condicionamentos etc., e tudo isto pelo viés da sensibilidade que se constitui no chegar lá pelos caminhos não convencionais. No poema “Encantado”, por exemplo, Guimarães desarranjará os elementos naturais para organizá-los criativamente, em busca da harmonia desejada. Trata-se daquele esquema que já apontamos acima: dar significação aos elementos da natureza, tendo em vista uma perspectiva, sem exagero: demasiado humana. O efeito estético é surpreendente.
Não conheço o José Guimarães, desse conhecimento que me permita falar da poesia pensando no autor, e estaria frustrado agora se meu objetivo fosse conhecê-lo. O fato, consolo metafísico da arte, é que sei um pouco mais de mim e talvez seja essa, afinal, a maior riqueza que possa nos oferecer um livro de poemas.

2 comentários:

  1. Perfeito! Esse é o professor Dante Gatto! Gênio da literatura, sou suspeita porque já sou fã. Que outros possam confirmar, agora, resta-me conhecer a obra de Guimarães, aguçou-me a curiosidade professor! Parabéns pelo belíssimo prefácio, só mesmo quem entende de poesia poderia escrevê-lo tão bem.!

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  2. Fico feliz que tenha gostado. Obrigado. Podendo ajudar, estarei aqui.

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