segunda-feira, 7 de outubro de 2013

POESIA E POEMA

Este texto foi publicado também no jornal Tribuna de Tangará: 

GATTO, Dante. Poesia e Poema. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 09 out. 2013.


 O poema é só a formalização da poesia e a poesia, como a vida, é imprevisível, subversiva, iconoclasta... É nosso o desejo de formalidade na tentativa desesperada de apreensão da vida que nos escapa. Preocupação profissional, que seja. O momento que a coisa nos pega é quando a poesia chega, impressentida sempre: epifania.  Depois vem o poema, o arranjo formal que tenta capturar esta primeiridade. Amamos o poema, sua construção artística nos encanta e sensibiliza. Isto é, fundamentalmente o amamos porque ele nos eleva à poesia, a vida na sua essência.
       Certa ocasião fui convidado a um sarau. Fui. Foi bom. Depois fui beber com algumas pessoas que estavam por lá. Noite quente como sempre aqui no Mato, mesa ao ar livre, céu aberto... Esvaiu-se a pouca formalidade do encontro. Podíamos falar qualquer coisa, da vida com todas as suas mazelas, do amor e dos desencontros. Foi lá pelas três da manhã que a poesia chegou. E não veio do sarau, nem em poemas, ou versos. Veio. Não fui o único que sentiu isto. Chegou quando ninguém mais esperava por ela. Drummond já dizia que a verdadeira poesia (“ode cristalina”) se faz sem poeta.
Nós, professores, que nos dedicamos ao estudo minucioso do poema, da sua constituição, e isto é muito necessário, inclusive a técnica, não podemos esquecer, e por vezes esquecemos, que na loucura de congelar a verdade a poesia nos abandona.
Conteúdo e forma, em toda produção artística, associam-se intrinsecamente. Há muito que se dizer sobre tal questão. Caberia mesmo um estudo, comparando períodos literários, demonstrando as marcas da realidade na obra de arte literária. Foi o romantismo, no entanto, que se operou o mais significativa das transformações que resultou em questionar o lugar da literatura. Explodiram-se as contradições sociais da ordem clássica que, se por um lado eram contraditórias, por outro permitiam uma localização de valores o que resultava em certo conforto. O Renascimento foi o último momento da arte clássica: o equilíbrio e a ordem da Renascença produziram obras que representavam a expressão de uma grande arte utópica e não de um mundo harmonioso.
A ruptura dos paradigmas da poética clássica configura-se num processo de avanços e retrocessos. Como bem sabemos, a coloquialidade e o desprendimento do léxico culto no poema foram conquista da modernidade. A mimese combinada ao caráter formativo da literatura implicava certa profundidade temática. João Cabral de Melo Neto, por exemplo, (“Antiode”) vai mexer nas “fezes” suscitadas pela “flor” e escancara: “contra a poesia dita profunda”. Se esta, a flor, digamos assim, era matéria da poesia, aquela, as fezes, não mereciam luz. Não era nem uma questão formal (“andaimes”), mas temática mesmo. Mas a poesia modernista de Cabral (geração de 45) incorpora no poema a palavra “fezes”. Ele confessa que, anteriormente, evitava os “estrumes da poesia” em favor às “transparentes florações”. O poema ganhou em humanidade. Manoel de Barros, outro exemplo, vai levar isto ao paroxismo, introduzindo, numa longa enumeração, aquilo que “serve para a poesia”. Resumindo: “Tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima, / serve para poesia”. O que queremos dizer? A arte, como sabemos, constitui-se num desvendar do ser. A civilização representou o privilégio de alguns aspectos em detrimentos de outros. Não cabe aqui dizer se fizemos o certo ou o errado. Fizemos. Fomos nós que fizemos este mundo. Ora, jogamos muita coisa fora. Cabral e Barros, reveladores da mais profunda humanidade, vão resgatar e introduzir um pouco disto, que estava na obscuridade, no lixo. E caminhamos para dentro de nós mesmos, na louca investida de revelar nossa essência. Bem, em toda poética há ruptura, retorno e o complexo amálgama dialético.
Adoro saraus e o antes, e o depois.

Um comentário:

  1. É bom lembrar! tinha esquecido isso a muito tempo!

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