terça-feira, 11 de junho de 2013

RAZÃO, RACIONALISMO, TRAGÉDIA E TRÁGICO

Este texto também foi publicado no Jornal Tribuna de Tangará:


GATTO, Dante. Razão, racionalismo, tragédia e trágico. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 07, 29 jan. 2014.



Na perspectiva kantiana razão é a faculdade das ideias, que, como postulado, ultrapassa o conhecimento conceitual e científico, uma vez que acolhe elementos de ordem sensível. Um homem exclusivamente racional é uma abstração, jamais o encontramos na realidade. Todo ser humano é constituído, ao mesmo tempo, por uma atividade consciente e por experiências irracionais do sentimento. Ora, porque entendemos sentindo é que inventamos a arte. No entanto, praticamos cotidianamente o termo razão numa dimensão puramente de articulação de conceitos, e, curiosamente, quando estamos diante de questões sensíveis-racionais saímo-nos com a seguinte máxima: razões que a razão desconhece. Sim, desconhecemos, mas é assim: racional assim. Na verdade, o que praticamos é uma confusão do termo razão com o termo racionalismo. Racionalismo seria, pois, a razão eclipsada, atacada do pragmatismo que imprimimos à vida. Aliás, todos os ismos acabam resumindo o adjetivo à uma perspectiva reduzida e limitada, não é verdade?
Deveria ser fácil compreender os sentimentos uma vez que os experimentamos infinitas vezes, mas é amparado pelo racionalismo que voltamos todas as nossas preocupações cognitivas, porque se trata de imposição dos mecanismos coletivos de sobrevivência. A própria absorção da arte ou o ensino da literatura, por exemplo, consistem em aprender a sentir e valorizar os sentimentos como forma de conhecimento. Para muitos, no entanto, a reflexão em torno à subjetividade é tomada pejorativamente como fuga ou coisa do tipo, mergulhados que estamos na objetividade da vida.
A razão é dialética, mas se a razão abarca também os sentimentos, então, também, é dionisíaca. Sim, mas, que fique bem claro, não no momento da ruptura com a realidade por impulso da nossa natureza sensível que é o dionisíaco propriamente dito. A razão é dionisíaca na medida da interferência apolínea. Somos, afinal, um complexo do pacto divino entre Dionísio e Apolo, racionalmente falando. Nietzsche esclarece isto retomando o principium individuationis de Schopenhauer, mas acostumamo-nos, erradamente, a encarar a coisa dicotomicamente como fazemos com todos os opostos.
A tragédia nasceu em momento significativo pelo choque de forças contrárias entre o mito e a racionalidade. A força irreprimível da palavra, no mundo da Grécia antiga, enquanto suprimento da democracia no século V a.C., vicejou no horizonte ainda dominado pela coerência mítica e o resultado disto foi a tragédia grega. O herói passou a prestar conta à comunidade, como um cidadão que se tornou, e na adequação a essa nova ordem é que se criaram condições propícias à inevitável catástrofe, que representa o encontro consigo mesmo. Não havia saída. Foi em momentos específicos de forte racionalismo, como na Grécia antiga ou na Inglaterra elisabetana, pela forte pressão da realidade. A tragédia, portanto, ganhou lugar na literatura como resposta à tentativa de suprimir os sentimentos e encarcerar o ser.
O racionalismo alcançou o paroxismo com o pragmatismo burguês ao mesmo tempo, por falta de saída, em que fomos inventando a produtividade do espírito nas infinitas formas de conciliação e sublimação. A tragédia passou a ser individual e psicológica, metonímica de um contexto maior; e o júbilo ao despedaçamento dionisíaco, que tornava terrível a perspectiva nietzschiana, e por vezes incompreendida, ganha sentido de pura realização do espírito, de morte psicológica.

O despertar da consciência para a ausência de vida na existência se configura como elemento da tragédia contemporânea: morremos para uma forma de vida ao mesmo tempo em que nascemos para outra, mesmo que as amarras do corpo não se tenham rompido. O páthos trágico, neste processo, perde a grandeza por conta, por vezes, pela necessidade de olhar o detalhe que cresce em significação como saída possível. Agora, a morte conquista seu mais profundo significado trágico, na consciência da inteireza da vida. Agora podemos entender o trágico como reinvenção do ser e sua significação epifânica. Esta nisto a permanência da tragédia em todas as formas literárias e sua sobrevivência como lírica da alma. 

2 comentários:

  1. Belo texto, Professor Dante! Belíssimo e esclarecedor. E que possamos de vez em quando "compreender os sentimentos, uma vez que os experimentamos infinitas vezes [...]"
    Meu abraço.

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