sábado, 4 de maio de 2013

ERA CLÁSSICA E ERA MODERNA: CONCEITOS E IMPLICAÇÕES

Este texto foi publicado também no Jornal Tribuna de Tangará:

GATTO, Dante. Era clássica e era moderna: conceitos e implicações. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, p. 06, 12 mar. 2014.

As revoluções burguesas que ocorreram no final do século XVIII significaram avanços que transformaram o mundo, principalmente, na perspectiva de encarar e se situar frente à realidade, tornada infinitamente mais complexa. Avanços que tiveram seu preço. A Revolução Industrial significou o surgimento da indústria: hierarquia piramidal, divisão de trabalho, perda da consciência do processo de produção e do produto dela, e muitos problemas sociais. A Revolução Francesa, por sua vez, foi respostas aos profundos problemas ligados as contradições da monarquia absolutista e alterou o quadro político da França, cujo exemplo serviu para todo o mundo. Ora, se a democracia representativa é mais justa, sua organização é infinitamente mais complexa e por vezes gera inseguranças que não tínhamos quando as decisões não precisavam da nossa participação. A última revolução burguesa de que nos referimos é a revolução estética e se entende pelo nome de Romantismo. O Homem do Romantismo fundamentalmente perdeu a visão da totalidade que lhe era prerrogativa na era clássica que é como designamos tudo o que ocorreu antes. Perdeu a visão do todo, porque este todo se tornou maior, não dominável pela compreensão imediata.
Uma questão que sempre se interpõe a nossas reflexões é o que se constitui enquanto literatura clássica. Em primeira instância, entendemos por literatura clássica aquela produzida na Grécia Antiga ou em Roma, ou aquela literatura produzida no Renascimento (Classicismo), no século XV e XVI que a resgatou. Em segunda instância, clássico, literariamente falando, é toda a produção escrita até (antes) o Romantismo. Antônio Soares Amora, neste sentido, divide o estudo da literatura em duas épocas principais: clássica e moderna. A primeira vai até o Romantismo; a segunda, após o romantismo, incluindo-o.
O homem da era clássica, porque tinha a consciência da totalidade, podia se pautar pela prerrogativa da razão: era, maniqueísta, não em sentido pejorativo, mas por condição social mesmo. O sentimento é inerente ao ser humano, mas neste período a razão, na medida em que configurava o certo e o errado, dava conta de fornecer as respostas que os homens precisavam.
O homem da era moderna, do romantismo não poderá mais contar com a razão para decidir qual caminho seguir, porque a consciência da totalidade se tornou impossível. Restou-lhe a convivência com um estado de alienação. O homem que não sabia mais e o que fazer pela voz da razão apelará à voz do coração. É o romantismo: o sentimento substituindo a razão enquanto prerrogativa humana em face da realidade.
Em se falando de literatura, na era clássica, enquanto protagonista (personagem principal) temos o herói: agente da ação, que se revelava contra as eventuais contradições. Diante da complexidade da era moderna, penso que não é difícil entender isto, o herói não mais será medido pelas suas ações, mas pelo seu caráter, no sentido de clarificação de sua consciência na tentativa de superação da inevitável alienação que se tornou sua condição. Herói problemático, portanto. A literatura conviverá, também, com a possibilidade do protagonista do anti-herói.
A literatura perde, pois, seu caráter formativo, porque a mensagem lhe escapa. Hegel decretou mesmo o fim da arte, mas a arte não acabou. Heidgger interpretou a expressão hegeliana acertadamente como um velamento da arte, como a própria situação do herói.
Consciência da totalidade implicava espírito de coletividade. Se todos tinham clareza do certo e errado, o discurso podia ser entendido coletivamente. O estado de alienação rompeu com tal perspectiva e só conseguiu fazer sentido na individualidade, porque a resposta pela via do sentimento é individual. Surgiu então, na literatura, o enredo psicológico em detrimento aos enredos tradicionais, de ação; e a epopeia, forma épica que retratava a saga de um povo, foi, então, substituída pelo romance que se refere a um caso particular, individual de auto-entendimento e da possível auto-realização.
            Ressurgem, no entanto, dentro do movimento dialético, momentos clássicos. O parnasianismo, por exemplo, tendência na poesia dentro do realismo, representou um destes ressurgimentos. O Modernismo, por sua vez, apresentou-se infenso às práticas anteriores (parnasianas), iconoclasta, caudatário do Romantismo com forte propensão nacionalista. A geração de 45 deixou aflorar, novamente, a forma e a temática clássica. Portanto, trata-se de um processo cíclico que nos permite afirmar: O clássico nunca morre, mas rejuvenesce em diferentes contextos. Acusamos tal fenômeno, resumindo drasticamente a questão, à prerrogativa racional em sua base e necessidade de recuperação e equilíbrio.

5 comentários: