quinta-feira, 30 de maio de 2013

A LIÇAO DE MACHADO DE ASSIS QUANTO ÀS PREOCUPAÇÕES DA NACIONALIDADE NA LITERATURA BRASILEIRA

Machado de Assis publicou, em 1873, o artigo “Notícias da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, uma vez que identificava tal sintoma, esse instinto, como “primeiro traço”, da nossa literatura, bem como, o geral desejo de criar uma literatura mais independente. Talvez, o mais importante deste artigo, hoje, quando podemos avaliar com maior clareza o passado, seja a reflexão que ele suscita do, digamos assim, localismo redutor que, por vezes, deixamo-nos submergir. Principalmente, quanto a nossa preocupação se resume à revisão canônica. Vou encaminhar aqui alguns pontos da argumentação de Machado que denuncia a cegueira dos seus contemporâneos e que pode nos servir, por analogia, à reflexão das nossas concepções que se fazem, às vezes, mesquinhas e reduzidas.
A preocupação em buscar as “cores do país” é “sintoma de vitalidade e abono de futuro", argumenta Machado. E adverte que a almejada independência literária se dará pausadamente, para sair mais duradoura, e contínuas gerações trabalharão até concluí-la de todo. No entanto, referindo-se às “manifestações da opinião” do seu tempo, lembrava ele, que valorizavam “as obras que traziam os toques nacionais”: a juventude literária apreciava Basílio e Durão como “precursores da poesia brasileira” por conta dos “primeiros traços de nossa fisionomia literária”, enquanto outros, Gonzaga, por exemplo, “não se lhes perdoa o cajado e a pastora”, e, devemos concordar com ele: “nisto há mais erro que acerto”.
Injusta, também, considera Machado, a censura aos nossos poetas coloniais no que se refere à independência literária. Ora, lembrava ele, a própria “independência política jazia ainda no ventre do futuro”. As obras de Basílio da Gama e Frei Santa Rita Durão investiram na “cor local”, mas não em tornar “independente a literatura brasileira”. Aliás, mais uma lembrança dele, “literatura [brasileira] que não existe ainda, que mal poderá ir alvorecendo agora”. Bem, está mesma questão será pauta da semana de arte moderna, por conta da exagerada influência francesa, não é?
Eis outra contradição, lembrada por ele: a atenção para a história e os costumes indianos, cuja reação foi que “não estava toda a poesia nos costumes semibárbaros anteriores à nossa civilização”. Sim. Mas seguiu-se a concepção errônea de que a poesia nada tinha com a existência da raça extinta, tão diferenciada da raça vencedora.

É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos da nossa personalidade literária. Mas se isto é verdade, não é menos certo que tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo ou os elementos de que ele se compõe.

Muito significativo, não é verdade?
Não só a vida indiana, mas a natureza americana desafia poetas e prosadores. Os costumes civilizados, do tempo colonial ou do tempo de hoje, lembrava Machado, igualmente oferecem à imaginação boa e larga matéria de estudo. As tribos indígenas desapareceram da sua região, mas o dominador “colheu informações que foram transmitidas como verdadeiros elementos poéticos”. Inevitável, pois, que a “imaginação dos poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas regiões [...]”.
É errôneo, continua argumentando Machado, mas parece que se reconhece o espírito nacional nas obras que tratam de assuntos locais, “doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura”. Incluir-se-ia no panteão nacional, por exemplo, De Gonçalves Dias Os Timbiras, mas não as belas Sextilhas de Frei Antão, “até pelo estilo que ele habilmente fez antiquado”. Machado indaga, neste sentido, “se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês”.
Uma literatura nascente deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não sob o preço do empobrecimento. Eis aqui o fulcro da lição machadiana: “O que se deve exigir do escritor antes de tudo [de Tangará da Serra ou de Paris], é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”. Este deveria e deve ser os horizontes da crítica. Este conselho vale para nós, profissionais da palavra. Machado de Assis tinha clareza que era este um dos males da literatura sua contemporânea. Acrescenta ainda que a análise crítica deveria corrigir e animar invenção, investigar os pontos de doutrina e de história, estudar as belezas, apontar os “senões”: “que o gosto se apure e eduque, para que a literatura saia mais forte e viçosa, e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam”. 


Referências



MACHADO DE ASSIS, José Maria. Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade. In: ____. Obra completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Vol. III.

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