segunda-feira, 29 de abril de 2013

O ESPÍRITO LÚDICO DA POESIA RELIGIOSA DE GREGÓRIO DE MATOS (1623-1696)


            O dilaceramento humano por impulsos e anseios antagônicos repercutem na consciência do homem seiscentista: por um lado, o apelo para o alto, rumo ao Céu, sob a motivação da espiritualidade contra-reformista; e, de outro, a atração para baixo, exercida pelo humano, natural, terreno.[1] O Barroco suscita a lei de uma invertida gravidade, contrapondo à lei de Newton, (1687): é o Céu, a Divindade o centro do Universo que exerce força atrativa para si de todos os corpos. O homem barroco reage contrapondo-lhe a afirmação rebelde de seu destino ter(real): Céu/terra, realidade/utopia, participação/evasão, ascetismo/mundanidade, coexistindo e chocando-se acabam por conferir ao período uma feição dilemática que talvez pudéssemos reduzir à dicotomia carne/espírito.
            A dualidade religiosa e profana, urdida à boca do inferno e do céu nesse purgatório terreno, está na base da poética gregoriana. Mais homogênea e monolítica, a poesia religiosa não comportaria subdivisões. Já a profana, pensando didaticamente, talvez admita a seguinte compartimentação: amorosa, encomiástica, de circunstância e satírica. De qualquer forma, religiosa ou profana, é reveladora de uma tensão antinômica: ora séria e angustiada, ora jocosa e galhofeira, quando não irascível e pornográfica.
            Apesar da redução perigosa das tendências dicotômicas, podemos identificar forte tensão na postura da vida como da obra de Gregório: por um lado, a entrega ao gozo pleno, pecaminoso e irresponsável da existência; por outro, o arrojar-se, arrependido, aos pés da Divindade, em busca de misericórdia e perdão. Aí a tônica da poesia religiosa de Gregório, barroca, inclusive, na formulação do paradoxo de que a grandeza da misericórdia divina está na relação direta da enormidade do(s) pecado(s). Se é o pecado que promove o engrandecimento de Deus, justificando-o enquanto Pai misericordioso, nada mais natural que o homem peque para a glória maior da Divindade.

A CHRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA[2]

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

            Há quem até entenda um tom de desafio no soneto que se segue, do eu-lírico no apelo ao perdão divino.

AO MESMO ASSUNPTO E NA MESMA OCCASIÃO.[3]

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vós há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vós deu como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


[1] SILVEIRA, Francisco Maciel. Gregório de Matos Guerra: a barroca eternidade do fortuito e do circunstante. In.: MATOS, G. Poesias selecionadas. São Paulo: FTD, 1993. p.10-11 passim.
[2] MATOS, G. Poesias selecionadas. São Paulo: FTD, 1993.
[3] Id., op.cit., p.18.

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