quarta-feira, 3 de abril de 2013

CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA


Pelo convite à aventura do espírito, conforme Pedrosa (1992, p.299), Candido tornou-se referência básica de nossa melhor crítica contemporânea. Seus estudos sobre a formação da literatura brasileira representam um desafio às convenções nacionalistas e antinacionalistas.
Segundo Afrânio Coutinho, em tese defendida nos anos 60, a especificidade e a autonomia da literatura brasileira já se fazia desde Gregório como uma tradição afortunada, livre de conflitos e rupturas, com um unívoco espírito nacional que evolui gradativamente como manifestação espontânea, como aconteceria com qualquer indivíduo sujeito as mesmas condições geográficas e climáticas. O colonizador português, assim, teria passado por um processo de obnubilação, isto é, esquecimento total de suas práticas e valores de origem.
Tais idéias têm pressupostos e implicações bastante discutíveis. Conforme Pedrosa (1992, p.296), uma definição meramente geográfica de nacionalidade peca por conta da sublimação de apelos sociais e políticos, atendendo a identificação com expectativas institucionais do senso comum: a literatura brasileira constituir-se-ia meramente na literatura produzida no Brasil.
Silvio Romero, com seu estudo historiográfico polêmico (modelo sociológico positivista), abriu caminho para o trabalho crítico e historiográfico de Antonio Candido que parte de uma premissa que se opõe à de Afrânio Coutinho. Cândido negará a idéia naturalizante e homogenizadora da nacionalidade. Para ele, um valor sociopolítico sustenta o conceito de literatura brasileira, um valor que foi e continua sendo definido e redefinido. Nossa literatura, portanto, só pode se constituir a medida da afirmação de uma vontade e uma consciência de identidade nacional que magnetizaram público e escritores para uma atividade literária brasileira. (CANDIDO, 1957, p.24-25).
A inserção geográfica de autores e a submissão a temas predefinidos como nacionais não determinam a atividade literária. Ou melhor, ela não está desvinculada a eles. Seria, sim, devedora de todo um movimento surgido no século XVIII com a autonomia proposta pelo Romantismo. Gregório de Matos, pois, está fora, em se considerando a literatura como uma atividade sistemática. Trata-se, conforme Cândido, de manifestações literárias, “não originadas de uma consciência nacional, independente de uma prática contínua de escritura e leitura e, por isso, incapaz de influir na formação de uma tradição literária.” (CANDIDO, 1957, p.25). A produção neoclássica, no entanto, tem o papel resgatado apesar de convencionalmente ser considerada mera reprodução alienada de formas e valores culturais europeus. O que pesa para Candido é a função aglutinadora das academias e sociedades literárias fundada no período com atuação pedagógica e política intensa. O pastor arcádico é concebido por ele como precursor do índio romântico. (CANDIDO, 1957, p.52-53).
O esforço de atualização do racionalismo clássico, próprio da poesia pastoril, colaborou para que a realidade rústica do Brasil se adequasse à linguagem literária. Tem-se assim aberto o caminho que permitiria a nossa literatura ocupar um lugar no quadro da cultura ocidental. Universal e particular, racional e expressivo, clássico e romântico relacionam-se dialeticamente, exemplarmente, na autodefinição de Mário de Andrade: “um Tupi tangendo um alaúde” que se associa àquela que preside as relações de troca e dependência cultural. Candido descarta uma crença idealista na identidade nacional autônoma, e a inevitabilidade e conveniência de nossa submissão aos desígnios colonizadores, mas considera uma função repressiva e produtiva. Enfatiza ele o duplo gume mobilizador e direcionador de nossa formação cultural e literária, como das demais nações americanas.

Referências
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1957. 2v.
PEDROSA, Célia. Nacionalismo literário. In: JOBIM, José Luis. Palavras da crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p.277-306.

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