terça-feira, 2 de abril de 2013

A PALAVRA NA LITERATURA


A palavra, na literatura, abandona sua condição de dicionário e assume outro sentido. Isto é mais evidente na poesia, mas serve para os demais gêneros. O artista, poeta ou ficcionista, inventa outro uso para a palavra, além daquele uso que fazemos dela no cotidiano para dar ciência de informações ordinárias. Na literatura, a significação é de ordem essencial e tem implicação com o contexto que inventamos, criamos.
Literatura é criação, mesmo que esta criação consista em organizar o que já estava posto, intertextualizar, parodiar etc. O importante é instaurar canais de sensibilidade: reanimar, doer, desestruturar ou estruturar, despertar, abalar e rejuvenescer.
A palavra na literatura abole o conceito. Este serve para o real que está posto. É útil num sentido positivo, no sentido de mover a máquina produtiva. A palavra da coletividade precisa do conceito, do sentido dicionarizado, da expressão fechada que colocará as coisas, e os homens, e as mulheres etc., no seu devido lugar. A palavra nunca é estática, mas aqui sua dinâmica obedece às regras do jogo mercantilista.
A palavra na literatura é essencialmente subversiva. Ela não reconhece instituições, o lugar inexiste como também estado civil, propriedade... Ela existe para inaugurar novas possibilidades e apontar o devir. É dinâmica e semovente, mas inerente ao que mais nos interessa. Ela se insere naquele espaço da procura que caracteriza o fenômeno humano, no mistério essencial que desperta nosso espírito de transcendência.
       A literatura é um fenômeno social. A coletividade se esforça para imprimir a homogeneização, a partir da média, em nome da ordem. A individualidade, no entanto, nem sempre se submete. Dizendo de outra forma: queremos caminhos inusitados por força da individualidade e da transcendência. Queremos outro caminho, mas não nos conformamos com a solidão: queremos trilhá-lo, por assim dizer, de mãos dadas com outros homens, por força do nosso sentimento de gregariedade. Paradoxo da condição humana. Como um homem que, caminhando com outros homens por um caminho predeterminado, um dia se rebela e grita, apontando outro caminho. Grito este carregado de significação essencial. Se a coletividade segui-lo, superando o comodismo e a alienação ou, pelo menos, reconhecer esse outro caminho, temos então um potencial verdadeiramente artístico. E se tal grito estiver carregado de profunda beleza, que corrobora, amplia e consubstancia a significação, então temos Arte. Se por fim, o meio de comunicação for a palavra, a palavra escrita, então temos literatura.
Literatura, enquanto arte, é a projeção da individualidade sobre a coletividade. É a afirmação daquela e o reconhecimento desta. É transcendência do Ser com compromisso com a sociedade.
Trazemos uma natureza essencialmente estética. Outro aspecto próprio da nossa condição humana. Queremos o belo que se configura como uma prodigiosa harmonia com a nossa essência. O conforto do útero é pouco para sintetizar o fenômeno. Há de se ter palavras para tanto e saber fazer uso delas de uma maneira particular e extraordinária, signos em rotação como a própria condição do ser.
Literatura é arte da palavra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário