sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

AMOR EM TRÊS DISPOSIÇÕES: BREVE ESTUDO DA POÉTICA DE LEONILDA ALVES RIBEIRO




Luzes, Câmera, Poesia... é composto por 75 poemas, divididos em três blocos: “poesias infantis” com 37 poemas; “poesias para reflexão” com 15 poemas e “poesias românticas” com 23 poemas. Há um detalhe semântico nestas nominações que consiste na utilização do termo poesia por poema. Poesia é o estado lírico; Poema e a concretude da poesia por meio de palavras. Coisa muito comum de acontecer que não deve desmerecer a publicação.
            “Poesias infantis” não são o que podem parecer a princípio, isto é, poemas para crianças. Nem todos são poemas para crianças, mas há composições para quem se interessa pelo universo infantil, marcados pela singeleza que o olhar suscita. “Bailarina” (p.16) é bom exemplo, neste sentido:

Sua coragem
Torna viva
Minha imagem.

            Outro exemplo é “Sentidos do brincar” (p.10), uma vez que o espírito lúdico nos escapa com facilidade quando deveríamos ampliar nosso olhar para a vida:

Brincar é a maior arte
Que sempre pode ser justificada
Pois quem não brincou
Deixou de se conhecer por um instante.

Página a página tem-se a apresentação de elementos do universo infantil, contemplados com particular sensibilidade.
Sintetizamos algumas particularidades estéticas deste primeiro bloco:
1)      Brincar com os significantes explorando o universo de significados, como faz com bola e bolo no poema “Com a bola e o bolo” (p.22).;
2)      Explorar a completude pela diversidade, como realiza no poema “Lápis ou borracha” (p.24);
3)      Explorar a polissemia, como executa com o poema “Toca” (p.25);
4)      Explorar o encanto pela palavra, combinado ao ensinar, são fulcros para os poemas “Quem sou eu” (p.36) e “Formando dígrafos” (p.39).
Dir-se-ia, por fim, referindo-se a este bloco (“poesias infantis”) que mais do que ser lidos por crianças, estes poemas despertam um impulso de ser criança, no sentido de abarcar-lhes o universo, compensando a nossa notória insensibilidade. Isto é, perdemos muito de apreensão da vida e sabedoria, quando sacrificamos a individualidade para atender aos interesses da coletividade. Despertar à sensibilidade infantil consiste em passo importante no sentido de, parafraseando Drummond, pisar no solo do nosso coração.
O segundo bloco de poemas (“Poesias para reflexão”) tem novamente o apelo à sensibilidade. Seria, pois, refletir sentindo. “A vida e o coração me guiam” (p.52), declara em “Harmonia interior”. E tem mais.

E assim seguem
Se entrelaçando
Corpo e alma
Coração e vida. (p.52)

Há um sentido de calma aceitação (eterno retorno) em “A vida que vem e a vida que vai” (p.53):


    A vida que vai
Permanece na vida de todos eternamente
Como uma semente que ainda pode brotar
    Num mesmo lugar.

Há, ainda, determinismo pessimista em “Apenas um minuto” (p.54), além dessa explicitação da fugacidade da vida:

Não há caminhos
Para o fim
Que não tragam sofrimento.

Se, por um lado, a vida demonstra-se sem saída, como evidencia em “Eclipse da vida” (p.58) e “Retrato” (p.59); por outro, em“Mudança de estação”, “Pais e filhos”, “Existência”, “Metade”, a vida persiste. Confessará, por fim, sua verdade em “Verdades”:

...................................
De tudo que se é vivido
Na mais plena das entregas
De forma imediata a resposta pulsará
Da moradia mais intensa do ser humano
Outra maior não há,
Sempre amar
Será a única
Verdade.

            Diríamos que a esperança na vida surgida no bloco de “poesias infantis” será fortemente esmaecida no bloco seguinte, as “poesias para reflexão”.
            No último bloco (“poesias românticas”) há uma saída para a irracionalidade, entendida como “mentira”. Estamos nos referindo ao poema “Perto demais para ser racional” (p.68). Vamos transcrever o poema inteiro, inclusive pela tentativa, na última estrofe, de configurar o amor.

Nós com a verdade
Somos imprevisíveis
Cortamos laços
Impomos decisões.

Já com a mentira
Arrastamos sonhos
Diblamos impossibilidades
Acalentando o doce amargo da vida.

Reinventar compete em
Encontrar a mentira que há dentro de si mesmo
E fazer dela a verdade
Capaz de equilibrar novas emoções...

No trânsito da vida
A verdade esconde em
Cada esquina uma mentira
Que ainda poderá contar a sua verdade.

Não temer o inesperado
Acolher alternativas
Tocam o verdadeiro
Sentido da vida
O amor.

            A ideia de amor foi tratada de maneira bem ampla e generalizada nas “Poesias para reflexão”. Agora, em “Poesias românticas”, o sentido se particulariza, mesmo porque se anuncia um objeto que sorri ou se fecha, como exposto no poema “minha vida” (p.67), passível de ser amado, cujo contato terá o poder de provocar um desvelamento interior, conforme anuncia o poema “Tímidas palavras” (p.72). Em “Pensamentos reversos” (p.69), o eu-lírico tentará configurar a “dinâmica do amor”:

Tudo tem a sua hora
Qualquer que seja a travessia
Você desenha meus pensamentos
Apenas com um olhar.

            Mas há os “poréns” no universo romântico ribeiriano, conforme exposto no poema “nós por amor” (p.70). O amor se apresenta também como “céu entre destroços”, mas permanece o desejo: “Só desejo tocar meus dias deslizando / Por doces noites de amor sem fim”. Esta tensão entre o desejo, o amor, e a realidade da possibilidade do afastamento completa os demais poemas.
            O que dá unidade aos três blocos são as perspectivas diferentes em relação ao amor: primeiro, o gosto pela profissão como força motriz, por conta do amor esperança, notadamente pela maneira particular do encarar a vida na perspectiva infantil; num segundo momento, o amor ainda sustenta a vida, mas é solapado pelo pessimismo e fugacidade das coisas e num terceiro momento, o amor aparece (des) acomodado, a partir do objeto amoroso, marcado por forte tensão como acabamos de configurar.
            Mas, eu vou fazer outra leitura e vai ser para não escrever mais nada.

Referência

RIBEIRO, Leonilda Alves. Luz, Câmera, POESIA. Tangará da Serra: Ideias, 2010.

Este artigo foi publicado também no Diário da Serra, de Tangará da Serra (MT);

GATTO, Dante. Amor em três disposições: breve estudo da poética de Leonilda Alves Ribeiro. Diário da Serra, Tangará da Serra, p. 2 - 2, 15 jan. 2013.

2 comentários:

  1. ai meu deus não é assim q eu quero !! mas valeu a ajuda ^^

    ResponderExcluir
  2. Se você me informar como você quer eu verei o que posso fazer. Aguardo.

    ResponderExcluir