sábado, 15 de dezembro de 2012

PÉTALAS DE SANGUE, A NOVELA DE KELLI KRAUSE


           A distinção das formas narrativas romance, novela e conto, por vezes se efetiva por uma linha muito frágil em decorrência dos muitos elementos em questão. Estou afinando o olhar neste sentido e penso que com a prática alcançarei maior clareza. Está questão de gênero literário não é coisa de muita importância, mas costumo frisar que não deve haver preconceito, uma vez que o adjetivo literário salva todas as formas. Este prelúdio foi só para diz que estamos diante de uma novela: Pétalas de sangue. Isto é: narrativa de ação, de caráter popular, com muitas peripécias, sem incursões profundas na psicologia das personagens, num tempo e espaço facilmente identificados e limitados.

        São trinta e quatro capítulos. Bastante irregulares no que se refere ao tamanho. Fato que revela que não foi escrito para publicação em jornais. O didatismo da nominação de cada cena configura também as novelas, como é o caso. O núcleo de ação dramática é o amor dos jovens Catarina e Edgar e se estenderá de “19 de novembro de 1990” (KRAUSE, 2011, p.13), momento em que Afonso, pai de Edgar é assassinado, até o momento em que o casal vence todos os obstáculos, de todas as ordens, e conseguem ficar juntos: “Catarina, eu voltei.” (KRAUSE, 2011, p.169). Os protagonistas tinham 13 anos quando se encontram, em 1992. Tudo é sempre muito bem determinado, espacial e temporalmente. São raros os flashbacks. A narrativa avança ao ritmo e gosto do envolvimento fácil do leitor.

       As sucessões de acontecimentos enredam as personagens de maneira quase inverossímil. Mas não me cabe dizer mais nada, para não comprometer o interesse dos leitores. É certo que nem todos mergulham na leitura por conta da história (fábula), mas por conta do enredo que é o tratamento artístico da narração e lêem mesmo sabendo das peripécias, do clímax e do desfecho. Em todo caso, não direi mais nada.

        Direi que as páginas de Pétalas de Sangue deslizam aos nossos olhos. Narração em terceira pessoa. É o que chamamos de heterodiegético: o narrador que não participa da história enquanto personagem, mas guarda aquela onisciência que já se tornou formula usual de narrar. O narrador sabe, afinal ele funciona como um Espírito onisciente, criado pelo Deus-autor. O leitor aceita isto sem questionamento: faz parte do caráter lúdico da arte da narrativa, e todos já experimentamos este jogo. Mas este narrador mostrará aqui e ali suas facetas. De repente, sua onisciência, digamos assim, não se efetiva: “não sabemos se era paixão o que Victória sentia [...]” (KRAUSE, 2011, p.33); “Quem poderia imaginar o que se passava na mente de Edgar naquele momento?” (KRAUSE, 2011, p.72); “Não sabemos se Edgar tinha outras intenções com a doutora, a princípio sabemos que ele queria apenas algumas informações” (KRAUSE, 2011, p.86-87). Saídas como estas dentro do modo usual, que é a completa onisciência, tem efeito estético de suscitar a participação do leitor, não é? Ora, “não sabemos”, mas eu sei que você sabe ou, pelo menos pode inferir, diria este narrador, praticando isto que Gérard Genette chamou de função comunicativa. Funciona.

       É uma regra usual em análise literária dar estatuto ao narrador de criação literária no mesmo nível de criação das personagens. Dizendo de outra forma: o narrador não é o autor, mas mais uma criação dele. Este narrador fará bastante uso de discurso direto (diálogos) e aqui e ali jogará com o indireto livre, aquilo de misturar sua voz à da personagem, e até inserirá grande blocos psicológicos, entre aspas duplas. Se o discurso direto equivale ao um afastamento do narrador, deixando a coisa para as personagens e o indireto uma aproximação do narrador ao narratário, estes blocos com os pensamentos vindos diretamente da fonte resultam num máximo de afastamento do narrador, não é? Para finalizar, há os momentos de intrusão que não são muitos e discretos: “Quando o amor verdadeiro passa por perto, ainda que não o veja, o coração fica aquecido por alguns momentos”. (KRAUSE, 2011, p.63).

        O que há de perturbador em Pétalas de Sangue é como a violência é absorvida: tráfico e crimes não definem o bem e o mal, mesmo a sexualidade se liberta de padrões e tabus. Quem assistiu ao filme de Tarantino Pulp fiction (1994) sabe o que eu estou dizendo. Talvez esteja neste fato a evidência que a ficção pode ser mais real que a realidade, bem como a dimensão da sua lição sobre a vida.

         Por fim, valeu a pena a leitura e a jovem autora, se pensarmos nas surpresas que se apresentam a cada página de Pétalas de Sangue, cujo sentido vai se construindo na fábula, ainda nos surpreenderá com as futuras produções ficcionais.


Referências

KRAUSE, Kelli. Pétalas de sangue. Tangará da Serra: Ideias, 2011.


Este artigo também foi publicado no jornal Diário da Serra, de Tangará da Serra (MT).

GATTO, Dante. Pétalas de Sangue, a novela de Kelli Krause. Diário da Serra, Tangará da Serra, p. 2 - 2, 02 jan. 2013.

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