terça-feira, 28 de agosto de 2012

PRIMÓRDIOS DA HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA NACIONAL


            O processo de afirmação da historiografia literária nacional processou-se entre 1805 e 1888.[1] Em 1805, ocorreu a publicação da obra Geschichte der Poesie und beredsankeit seit dem Ende des 13, intitulado geschichte der portugiesischen Poesie und Beredsamkeit, de Friedrich Bouterwek (1766-1828) com menção a Antonio José da Silva e Claudio Manuel da Costa. Em 1888, Silvio Romero publicou História da literatura brasileira com abrangência e fundamentação conceitual suficientes para consolidar a disciplina. Entre tais datas (1805 e 1888) apareceram diversas contribuições. Vamos apresentá-las por categorias:

1. No corpo historiográfico sobre a literatura portuguesa há menção a autores nascidos no Brasil:

  • De la littérature du midi de l'Europe (1813), do suiço Simonde de Sismondi (1773-1842), publicada posteriormente com o título de Bosquejo da história da poesia de língua portuguesa-, introdução da antologia Parnaso lusitano (1826), do português João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854).

2. Objeto de tratamento mais desenvolvido e autônomo da literatura brasileira, embora ainda permaneça como adendo a história da literatura portuguesa:

  • Résumé de l'histoire littéraire du Portugal, suivi du résumé de l' histoire littéraire du Brésil (1826), do francês Ferdinand Denis.

3. A produção brasileira será apresentada exclusivamente:

  • "De la poesia brasileña" (1855), de Juan Valera (1824-1905);
  • A literatura brasileira nos tempos coloniais, do século XVI ao começo do XIX: esboço histórico seguio de uma bibliogrtafia e trechos dos poetas e prosadores daquele período que fundaram no Brasil a cultura da língua portuguesa (1885), de Eduardo Perié. Não há informações deste autor.

4. Ensaios de teor mais crítico do que historiográfico:

  • do alemão C. Schlichthorst, capítulo do livro Rio de Janeiro wie es ist (1829);
  • e dos portugueses José da Gama e Castro (1795-1873) - publicadas no Jornal do Comércio como carta resposta a um leitor (Rio de Janeiro, 1842);
  • e Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo (1810-1877) - "Futuro literário de Portugal e do Brasil", artigo incluído na Revista Universal Lisbonense (1847-1848).

5. Livro inteiramente dedicado à história da literatura brasileira:

  • Le Brésil littéraire; histoire de la littérature brésilienne (1863), de Ferdinand Wolf (1796-1866).

            Ferdinand Denis e Ferdinand Wolf exerceram grande influência sobre nossos românticos por conta da exortação ao nacionalismo. Recomendava, inclusive, o primeiro, a ruptura com a Europa.

            No que se refere aos trabalhos de autores nacionais:

1. Temos as antologias de poesia da épica, chamadas "parnaso" ou "florilégios" com prólogos que assumem, por vezes, proporções de sínteses historiográficas:

  • Parnaso brasileiro (1829-1832), de Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), com duas introduções de pouco valor;
  • Parnaso brasileiro (1843-1848), de João Manuel Pereira da Silva, já melhor estruturada;
  • Florilégio da poesia brasileira (1850-1853), de Francisco Adolfo de Vernhagen (1816-1878);
  • o Mosaico poético (1844), de Joaquim Norberto de Sousa Silva (1820-1891) e Emilio Adet (1818-1867);
  • Meandros poéticos (1864), de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro (1825-1976);
  • Curso de Literatura Brasileira (1870), antologia, apesar do título e
  • o terceiro Parnaso brasileiro (1885), de Alexandre José de Melo Morais Filho (1844-1919).

2. Há também ensaios que constituem declarações de princípios sobre a idéia de literatura brasileira, envolvendo tanto reconstituições e avaliações do passado quanto projetos para as produções do presente e do futuro. Verdadeiros manifestos românticos, com premissas nacionalistas, projetando o futuro, prevendo a superação da submissão colonial:

  • "Ensaio sobre a história da literatura do Brasil" (1836), posteriormente o título foi alterado para "discurso", de Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882), publicado no primeiro número da revista Niterói;
  • "Da nacionalidade da literatura brasileira" (1843). Dois ensaios, publicado na Minerva Brasiliense, de Santiago Nunes Ribeiro (182?-1847).

3. Existem ainda estudos sobre a vida de escritores, constituindo as chamadas "galerias", coleções de biografias de "varões ilustres" e "brasileiras célebres":

  • Plutarco brasileiro (1847) de João Manuel Pereira da Silva (1847). Republicado posteriormente, bastante modificado, com o título Varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais (1856 e 1868);
  • Biografia de alguns poetas e homens ilustres da província de Pernambuco (1856-1858), de Antonio Joaquim de Melo (1794-1873);
  • Brasileiras célebres (1862), de Joaquim Norberto de Souza Silva; e
  • Panteon maranhense (1873-1875), de Antonio Henriques Leal (1828-1885).

4. As edições de textos, por seu turno, formam categorias à parte, com aparato composto por notícias biográfica sobre os respectivos autores, juízos críticos e notas explicativas.

  • Joaquim Norberto de Souza Silva cuidou de edições de Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1864), Alvarenga Peixoto (1865), Gonçalves Dias (1870), Álvares de Azevedo (1873), Laurindo Rabelo (1876), Casimiro de Abreu (1877);
  • Francisco Adolfo de Vernhagen, Basílio da Gama (O Uraguai, 1769) e Santa Rita Durão (Caramuru, 1781), reunidos no livro Épícos brasileiros (1845), Bento Teixeira, Vicente do Salvador, Ambrósio Fernandes Brandão, Gabriel Soares de Souza
  • Alfredo do Vale Cabral (1851-1896) é responsável pela edição do primeiro volume das obras de Gregório de Matos (1882), as sátiras, anteriormente publicado somente em antologias

5. Por fim, temos as histórias literárias em sentido estrito, isto é, livros interessados em estabelecer periodizações e sínteses historiografias - então chamados "cursos" e "resumos" -, atentos menos à individualização dos autores do que ao panorama das épocas sucessivas:

  • Curso elementar de literatura nacional (1862),[2] de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro (1825-1876). Trata da portuguesa, também, e o Resumo da história literária (1873), fiel à tese do curso, tem a pretensão, bem própria do historicismo romântico - que hoje nos pareceria ingênua -, de abranger a literatura de todas as épocas e países.
  • Curso de literatura portuguesa e brasileira (1866-1873) de Francisco Sotero dos Reis. A literatura brasileira é tratado em parte dos volumes quarto e quinto, o autor começa sua narrativa e análises com poetas do século XVIII, por ele considerados "precursores", cabendo apenas aos escritores do período pós-independência inclusão no que chama "literatura brasileira propriamente dita".
  • História da literatura brasileira de Joaquim Norberto de Souza Silva. Ao contrário das obras anteriores, esta não tinha objetivos didáticos, mas volta-se à preocupação do conceito de literatura brasileira com a postura apaixonada do romantismo: valorização da natureza, dos indígenas. Foi publicado em capítulos na Revista Popular, de 1859 à 1862, não sendo finalizada.

6. Pode-se acrescentar, ainda, ensaios não exatamente historiográficos, mas críticos que, no entanto, antenados com a história literária é suscitada pela questão do nacionalismo que é tomado como referencial de valor. Há de se destacar:

  • "Ensaio crítico sobre a coleção de poesias do Sr. D. J. G. de Magalhães" (1833) de Justiniano José da Rocha, na Revista da Sociedade Filomática;
  • "A moreninha, por Joaquim Manuel de Macedo" (1844), na Minerva Brasileira;
  • "José Alexandre Teixeira de Melo: "Sombras e sonhos" (1859), de Antonio Joaquim de Macedo Soares (1838-1905), na Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano.
  • pode-se também incluir aqui os ensaios de José de Alencar que recaem, inclusive, sobre a significação da sua obra como expressão literária genuinamente nacional.

            A esta altura está dado o início à superação da perspectiva romântica, em que o clamor ufanista e declamatório dava lugar à perspectiva analítica. Novos rumos são encetados a partir de 1860 e consolidado na década seguinte. Na fundamentação da objetividade dos novos tempo está o positivismo, o evolucionismo, o determinismo e o transformismo. Destaques:

  • Machado de Assis procurou rever o romantismo sem aderir às atitudes anti-românticas. Referência significativa: "Notícias da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade" (1873);
  • João Capistrano de Abreu (1853-1927);
  • Manoel de Oliveira Lima (1865-1928);
  • Tristão de Alencar Araripe Junior (1848-1911),
  • Silvio Vasconcelos da Silveira Tamos Tomero (1851-1914) e
  • José Veríssimo Dias de Matos (1857-1916).

            Araripe, Romero e Veríssimo foram as principais referências brasileiras no campo dos estudos literários nos finais do século XIX e começo do XX. Romero (sociológico-positivista) e Veríssimo (histórico-estético), respectivamente em 1888 e 1916, publicaram suas História da literatura brasileira, obras fundamentais para a consolidação da disciplina.

Referência

SOUZA, Roberto Acízelo de. Primórdios da historiografia literária nacional. Introdução à historiografia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, 2007. Série Ponto de Partida. p.29-41.


[1] Anteriormente constatam-se notícias sobre autores e obras, em verbetes dispostos em ordem alfabética. Há na biblioteca lusitana publicações sobre o barroco, de 1741 a 1759, do abade Diogo Barbosa Machado (1862-1772).
[2] Fernandes Pinheiro argumenta que haveria literatura brasileira distinta da portuguesa a partir da independência e do Romantismo, mas "não eram suficientes para constituir uma literatura independente". (PINHEIRO, 1978, p. 493 apud SOUZA, 2007, p.36).

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