terça-feira, 5 de junho de 2012

O ROMANCE HISTÓRICO TRADICIONAL

            O romance histórico teve um cultivo abundante no pré-romantismo inglês. É verdade que escritores franceses e alemães entregaram-se, também, à prática deste gênero, mas foi o escocês Walter Scott que acordou toda a Europa e a América para o interesse pelo romance histórico. Isto se deu, principalmente, a partir de Ivanhoé (1819) em que se pode encontrar quase todos os recursos scottianos que seriam assimilados pelos romancistas históricos.
Mata Induráin (1995, p.24), neste sentido, lembra que o romance histórico é um gênero genuinamente romântico a tal ponto de se poder afirmar que “la imaginación romántica hizo ser historiadores a los novelistas Y novelistas a los historiadores”. As idéias românticas exerceram grande influência na historiografia da primeira metade do século XIX, “incluso se pensaba que era posible aprender la historia inglesa en las novelas de Scott”.
            Tomando-se a obra de Márquez Rodríguez (1991, p.21) discernir-se-á alguns elementos definitórios do esquema tradicional que, como vimos, foi estabelecido por Walter Scott. Primeiro: um “gran telón de fondo” com rigoroso caráter histórico ocorrido em um passado mais ou menos distante do presente do romancista. Indispensável, também, é a presença de personagens históricos bastante conhecidos. Pois bem, sob este grande telão de fundo um acontecimento fictício, com personagens fictícios. Acontecimento este que bem poderia ter ocorrido realmente. Outro passo: dentro deste acontecimento fictício um episódio amoroso. E, por fim, o primeiro plano da narração é ocupado pelo acontecimento fictício e, conseqüentemente, pelos personagens fictícios.
            No que se refere a este último aspecto: isto não quer dizer que o fundo histórico seja de importância secundária. Ora, nele estão os elementos primordiais que configuram a atmosfera moral do relato:

De la relación entre los personajes centrales, ficticios, y los colaterales, de caráter histórico, derivan algunas de las claves fundamentales de la trama novelesca, que explican, por ello mismo, muchos de los comportamientos de los personajes, tanto reales como ficticios, así como también las soluciones que se va dando a los conflictos que a lo largo del relato se han ido presentando, hasta culminar con la solución o desenlace final”. (MÁRQUEZ RODRÍGUES, 1991, p.22).

            O romance histórico nasce no começo do século XIX como conseqüência de uma série de circunstâncias históricas e sociais. Waverley, o primeiro romance de Scott, de 1814, coincide, não acidentalmente, com a derrocada do império napoleônico. Os romances com temas históricos que se fazia anteriormente, conforme Mata Induráin (1995, p.21), as chamadas “antiquary novels” inglesas, da segunda metade do século XVIII, são históricas somente em sua aparência externa “pues la psicología de los personajes y los costumbres descritas corresponden a la época de sus autores”.
            A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas criaram os primeiros exércitos populares. O povo começa a tomar consciência de sua importância histórica. Reaviva-se o sentimento nacionalista nos territórios submetidos com a conseqüente glorificação do passado nacional e um interesse crescente por temas históricos.

El escritor escocés sabe interpretar las grandes crisis, los momentos decisivos de la história inglesa: momentos de cambios, de fricciones entre dos razas o culturas, de luchas civiles (o de clases, según Lukács); y lo hace destacando la complejidad de las fuerzas históricas con las que há de enfrentarse el individuo. No altera los acontecimientos históricos; simplemente, muestra la história como “destino popular” o, de otra forma, ve la historia a través de los individuos. (MATA INDURÁIN, 1995, p.23).

            Outro ponto que se afigura digno de observação é a questão da distância cronológica do tempo do narrador em relação ao tempo do romancista. Tanto Seymor Menton (1993, p.32) como Márquez Rodríguez (1991, p.22) citam Anderson Imbert, que sustenta que a distância entre o ato de narrar e os fatos narrados devem ser distantes, pelo menos cinquenta anos, e, portanto, nega o caráter histórico àquelas de tipo testemunhal em que o romancista narra fatos que presenciou diretamente, ou em quais participou de uma ou outra maneira.
            Márquez Rodríguez posiciona-se criticamente em relação a este fato, posto que o que dá caráter histórico a um acontecimento não é a distância entre narrador e autor, mas sua condição intrínseca de fato que, de alguma maneira e em outra medida, tem influído no desenvolvimento dos acontecimentos posteriores a ele e com os quais tem alguma relação. O posicionamento de Anderson Imbert teria algum sentido, na opinião de Márquez Rodríguez (1991, p.22), antes do enorme desenvolvimento alcançado pelos meios de comunicação nas últimas décadas, em que um acontecimento histórico, por grande que fosse, seu significado e transcendência surtia efeito com lentidão. Hoje, absorvem-se imediatamente os acontecimentos e isto não modifica em nada o caráter histórico dos mesmos.
            Márques Rodríguez (1991, p.24), por fim, conclui:

Menos aún podría aceptarse el argumento de Anderson Imbert de que el novelista que narra episodios por él vividos o presenciados no puede verlos con  ojos de historiador, y por ellos su relato no puede ser calificado de novela histórica. Nos parece que en ningún momento el novelista puede ver los hechos que narre, sean próximos o lejanos a su tiempo real, con ojos de historiador. Es más, la condición para que sea novelista y no historiador, y por tanto para que su producto sea novela y no historia, es que no vea los hechos en que se basa com ojos de historiador, sino de novelista.

REFERÊNCIAS

MÁRQUEZ RODRÍGUEZ, A. Evolucion y alcances del concepto de novela histórica. In: Historia y ficción en la novela venezolana. Caracas: Monte Ávila, 1991, p.15-54.
MATA INDURÁIN, C. Retrospectiva sobre la evolución de la novela histórica. In: SPANG, K. et. al. (ed.). La novela histórica. Teoria y comentarios. Barañain: Un. Navarra, 1995, p.13-63. 
MENTON, S. La nueva novela histórica: definiciones y origenes. In: La nueva novela histórica de la América Latina, 1979-1992. México: FCE, 1993, p.29-66.

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