domingo, 15 de abril de 2012

REFLEXÕES ACERCA DA ARTE

(http://www.diariodaserra.com.br/showartigos.asp?codigo=139134)
O fenômeno arte, pelo que me consta, é uma atividade especificamente humana. Somos um complexo de possibilidades que não se restringe a mera satisfação das necessidades imediatas à sobrevivência que se manifesta com poderosa força instintiva. No entanto, se diferenciamo-nos das outras espécies neste sentido, há um aspecto que nos aproxima dos animais chamados irracionais: somos gregários. Isto é, realizamo-nos a partir das nossas relações sociais. Dizendo de outra forma, carecemos de reconhecimento coletivo, nem que seja da nossa pequena comunidade, família... daquilo que queremos, acreditamos e fazemos.
Estes dois pólos efetivam a complexa natureza humana e suscitam um antagonismo básico do indivíduo com a coletividade.
O relacionamento imediato com a coletividade, nos torna, digamos assim, homens funcionais. Somos reconhecidos à priori pela nossa função social: aluno, professor, motorista, caixa de supermercado etc. Todos servindo à coletividade e à espécie. Mas isto, individualmente, não nos basta. Queremos mais. E este mais é de outra ordem.
Vejam que há uma tensão na base do fenômeno artístico, na configuração deste sistema. Ora, a coletividade institucionaliza o que se lhe apresenta favorável a sua sobrevivência. A coletividade, como um corpo, tem uma hierarquia de necessidades básicas e o indivíduo se curva a tal exigência funcional, afinal sobreviver é preciso. O artista será, pois, um indivíduo sensível e pensante, cidadão na mais profunda acepção da palavra, que questionará a ordem reinante das mais diversas formas e graus de aderência e contato social. Efetivar-se-á, enquanto artista, pelo reconhecimento da coletividade o que nem sempre acontece e, por vezes, implica um processo doloroso.
Não podemos dizer que a arte não esteja nos interesses da coletividade uma vez que, por exemplo, um músico ou um ator são reconhecidos pela sua funcionalidade, mas isto não aparece num primeiro momento. Em princípio, a esfera da arte é a individualidade. Só será reconhecida pela coletividade pelo empenho individual do artista no sentido de sensibilizá-la. A obra de arte, subjetiva e metafísica, requer que nós a compreendamos sentindo. Ela nos atinge por dentro, primeiramente, como um forno de microondas promove o aquecimento. A arte nos aquece nesta aproximação de nós para nós mesmos. Cumprimos, talvez, uma inquietação transcendental. Não sei. O homem funcional caminha, digamos assim, para fora, efetivando um contato direto com seus chamados semelhantes, enquanto que o artista caminha para dentro de si mesmo, procurando uma confirmação íntima dos pensamentos e ações da funcionalidade e aproximando os homens pelos aspectos mais profundos da condição humana.
Sensibilizar a coletividade é o desafio do artista que, aliás, assim se efetiva enquanto artista. Os interesses imediatos da coletividade tendem a inibir a capacidade humana de sentir para além dos impulsos básicos de sobrevivência. A arte tende a resgatá-los. O artista, portanto, aparentemente, lutará contra a coletividade, mas o objetivo último e a irmandade dos homens na busca da essência do ser, discernir o sentido mais profundo da vida e promover a felicidade humana, mesmo que ainda não tenhamos suficiente clareza deste mistério essencial. O reconhecimento coletivo, portanto, constitui o sucesso do artista e a vitória do ser.
Repetindo e resumindo: a arte está no criar, que está no sentir, que atravessa a superfície da vida, nossa funcionalidade social, para mergulhar nas profundas questões do Ser.
O inconsciente coletivo se pautará na média dos homens considerados normais (massa) e privilegiará a homogeneidade. A loucura, neste sentido, tem certa irmandade com a arte. O que a coletividade não assimila, ela tenderá a isolar e destruir. Muitos artistas extemporâneos são destruídos e, podemos até supor, que em muitos casos sua criação desapareça ou permaneça na obscuridade. Muitos são entendidos (assimilados pelo sentimento coletivo) muito tempo depois de sua passagem pelo mundo e há casos daqueles que morrem no anonimato e na miséria, e nada nos resta fazer a não ser a clara compreensão que a arte é maior que o artista. Neste caso, não há dor nem ranger de dentes. A arte salvou-se e o artista existe para a arte. Aliás, só o verdadeiro artista poderá entender tal verdade axiomática do ser. (Dante Gatto, 03 de abril de 2010)

3 comentários:

  1. "... a arte é maior que o artista" o artista somos nós e se a arte é maior do que quem a produz... talvez essa frase seja a relexão necessária para compreender os únicos dois caminhos que arte nos oferece o de ter e ser.

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  2. opa,passei por aqui
    ...desde que nascemos aprendemos com a arte,e é através dela que iremos deixar a nossa contribuição para a sociedade,depende de cada um.
    (joão batista)

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  3. "... sensibilizar a coletividade é o desafio do artista..."
    (Pamela Melo)

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