quarta-feira, 4 de abril de 2012

A PROSA BARROCA DO PADRE ANTONIO VIEIRA

A prosa barroca tem sua representação maior no conceptismo do Padre Antônio Vieira (Lisboa, 1608 ¾ Bahia, 1697). Há dois modos de conhecimento no barroco, refletidos em estilos: o gongorismo que consistia na descrição do objeto no encalço de alcançar-lhe a essência, o que resulta, inevitavelmente, em rebuscamento da linguagem; e o conceptismo que busca o conceito, por meio da lógica formal. No fulcro da personalidade de Vieira estava o desejo de ação, portanto, não lhe cabia enveredar pelo gongorismo. A religiosidade, a sólida cultura humanística e a perícia verbal serviam-lhe a projetos quiméricos. Bem, Portugal recuperava sua autonomia política, uma vez que desde 1580 estava sob domínio político da Espanha, mesmo período em que a Reforma Protestantes abalou os alicerces do catolicismo. Seus projetos sustentavam-se na utopia contra-reformista de um catolicismo triunfante que consistia, aliás, sonho medieval que um Império português e missionário tornaria realidade. Sua luta, no entanto, foi um completo malogro, neste caso e em outras investidas.
Vieira nasceu em Portugal, mas veio ainda criança ao Brasil. Retornou por conta da restauração. Começava o compromisso com a tentação jesuítica de dar cobertura ideológica aos projetos do poder, mas os sonhos de Vieira, mais ousados que as indecisões da casa de Bragança, passaram a chocar-se com toda sorte de resistências. Portugal, como sabemos, palmilhou o caminho da decadência, resumido no desfrute cego das riquezas coloniais, então o açúcar, logo depois o ouro, que iria dar seiva ao capitalismo inglês em gestação. Como intérprete fantasioso dos textos bíblicos em função do sebastianismo popular, vê frustradas as suas profecias além de atrair suspeitas de heresia. Advogado dos cristões-novos (judeus conversos por medo às perseguições), suscita o ódio da Inquisição que o manterá preso por dois anos e lhe cassará o uso da palavra em todo Portugal. Enfim, vencido na Europa, conhece no Maranhão as iras dos colonos que não lhe perdoam a defesa do nativo.
É de leitura obrigatória o Sermão da Sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, e no qual expõe a responsabilidade do pregador:

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho, e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho, e tem olhos, e se é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo há mister luz, há mister espelho, e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro de si, e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessário luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador, e do ouvinte, por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?[1]

            Bem, depois de sólida argumentação, ele concluirá:

Supostas estas duas demonstrações, suposto que o fruto é efeito da palavra de Deus não fica nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por conseqüência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis cristãos por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis pregadores por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa.[2]

Ao leitor brasileiro interessam particularmente O sermão da Primeira Dominga da Quaresma, pregado no Maranhão em 1653, em que condena a escravização dos índios pelos poder local. Vamos apreciar um breve trecho:

Todo o homem que deve serviço ou liberdade alheia, e, podendo-a restituir, não restitui, é certo que se condena: todo, ou quase todos os homens do Maranhão, devem serviços e liberdades alheias, e, podendo restituir, não restituem: logo, todos ou quase todos se condenam. Dir-me-eis que, ainda que isto fosse assim, que eles não o cuidavam nem o sabiam, e que a sua boa-fé os salvaria. Nego tal: sim, cuidavam, e sim, sabiam, como também vós o cuidais e o sabeis; e se o não cuidavam, nem o sabiam, deveram cuidá-lo e sabê-lo. A uns condena-os a certeza, a outros a dúvida, a outros a ignorância.[3]

            Enfim, depois de vasta argumentação, citando trechos bíblicos, concluirá:

Meus irmãos, se há quem duvide disto, aí estão as leis, aí estão os letrados, pergunte-lho. Três religiões tendes neste Estado, onde há tantos sujeitos de tantas virtudes e tantas letras; perguntai, examinai, informai-vos. Mas não é necessário ir às religiões: ide à Turquia, ide ao inferno, porque não pode haver turco tão turco na Turquia, nem demônio tão endemoninhado no inferno, que diga que um homem livre pode ser cativo. Há algum de vós, só com o lume natural, que o negue? Pois, em que duvidais?[4]

            Eis, pois, uma herança que não nos cabe abandonar.


[1] VIEIRA, A. Sermões. Vol. 1. São Paulo: Américas, 1957. p. 45. Primeiro parágrafo do § III.
[2] Id., ibid., p.52.
[3] Id., Sermões. Vol. XXI. São Paulo: Américas, 1959. p.190.
[4] Id., loc. cit.

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