segunda-feira, 12 de março de 2012

PARÂMETROS DE AVALIAÇÃO: A SUPERVALORIZAÇÃO DO ACERTO E A INSENSIBILIDADE AO ERRO

http://www.diariodaserra.com.br/showtangara.asp?codigo=144131
           
Nem sempre acertar é o melhor. Isto não é paradoxal. Vou explicar o que quero dizer: por um lado, o próprio acertar é uma contingência dialética; por outro, acertar não implica aprender. Aprender, como todos bem sabemos, implica mudança de comportamento o que, por vezes, não se processa com todos os acertos possíveis.
            Ora, as discussões sobre avaliação existem desde sempre, mas as perspectivas não mudam, nem eu pretendo aqui esperar mudanças, mas refletir e, se alguma houver, será na minha prática nascida da praxis, que, por fim, suscitou este pequeno artigo. Aliás, estou respondendo para a Ana (tudo nasceu de uma mensagem eletrônica), nome cíclico como pergunta e resposta desta questão tão complexa. Bem, vamos lá: o que eu penso que está na base do fenômeno, que compromete a avaliação, como já anunciei acima, é a supervalorização do acerto.
            Acertar é preciso, mas se constitui um processo que, por vezes, não é similar às contingência e condições da avaliação. Alguém não tão inserido no nosso mundinho acadêmico, um espírito iconoclasta, poderá refutar a própria necessidade de avaliar, já que aprender é um impulso natural ao fenômeno humano. Já não é mais tempo de falar de avaliação? Vamos deixar esta questão para outro momento. Vamos pensar nas condições de avaliação e pronto, já que não conseguimos processar a prática de ensinar sem avaliar.
            Vou exemplificar o que quero dizer: o (a) estudante não se dá bem numa avaliação em termo de acerto, mas a reflexão desencadeou nele (a) um processo que significa um acerto futuro ou, vá lá, errou de uma forma elegante, espetacular, surpreendente, inteligente que revelou reflexão dentro de determinados parâmetros que anunciam perspectivas futuras. Isto é só um exemplo dentro de infinitas possibilidades. O que eu quero dizer é que devemos voltar nossa atenção à qualidade do erro e não somente ao acerto. É neste ponto que devemos posicionar nossa preocupação avaliativa. Ora, o (a) estudante não está sendo avaliado para se dar bem em provas, mas para a vida e a vida, como diria Vandré, "não se resume à festivais" e nem a provas. Tenho uma tirada bem explicativa do que quero dizer, e como costumo sintetizar tal problemática em sala de aula, no sentido de promover o envolvimento e a participação: "é muito mais importante refletir e errar do que acertar sem reflexão", uma vez que a reflexão constitui exercício ao intelectual como à ginástica o é ao atleta. E geralmente o que acontece é que muitas vezes aquele (a) estudante que não entendeu de pronto (no tempo da avaliação) uma questão acaba afundando-se em reflexões e avançando muito além dos (as) estudantes nota 10 (dez). Isto é, se ele (a) não for extirpado antes, por conta da avaliação, da supervalorização do acerto ou insensibilidade ao erro.
            Pensar é bom, estimulante e provocador do acerto, do avanço, mas a prática escolar não é eficaz neste sentido, porque o acerto que se espera não está subordinado ao processo cognitivo do estudante, mas à perspectiva ideológica do professor e se estabelece um pacto tácito neste sentido, que divide parceiros em algozes e vítimas e penaliza todos. 
            A questão, portanto, recai na nossa sensibilidade para o que seria um erro. Um dos emblemas do pensamento positivista está em O estrangeiro de Caetano Veloso: "O certo é saber que o certo é certo". E a nota se revela paradigmática de uma concepção de inteligência que também está circunscrita ao universo do professor.
            Sabemos, hoje, das infinitas modalidades de inteligência e principalmente sabemos que inteligência se aprende, se constrói, se edifica, mas esta questão já merece um novo impulso que ficará para outra oportunidade.

3 comentários:

  1. Belo texto! E, parafraseando Leminsky:
    "Nunca cometo um erro duas vezes,
    Já cometo duas, tres, quatro, cinco, seis...
    Até esse erro aprender,
    Que só o erro tem vez"
    Certo e errado é um processo normativo, e a vida como potência se expande para muito além dos limites da norma! ;)

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  2. ...Pensar é bom, estimulante e provocador do acerto, do avanço, mas a prática escolar não é eficaz neste sentido, porque o acerto que se espera não está subordinado ao processo cognitivo do estudante, mas à perspectiva ideológica do professor e se estabelece um pacto tácito neste sentido, que divide parceiros em algozes e vítimas e penaliza todos...

    - Uma bom parágrafo,a ser citado na aula,...


    (Pamela Melo)

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    1. Sim, de fato. Veja que o mundo em que habitamos e que foi justamento nós que o criamos.

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