segunda-feira, 5 de março de 2012

HISTÓRIA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DO CURSO LITERATURA BRASILEIRA

            Selecionei alguns pontos significativos sobre o tema da obra de Roberto Acízelo de Souza: Introdução à historiografia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, 2007. Trata-se do capítulo “Ao raiar da literatura brasileira: sua institucionalização no século XIX” (p. 13-28).
A existência da literatura brasileira como matéria de ensino não foi um fato natural, mas uma construção histórica, cuja independência anunciou e só foi concluída proximamente à Proclamação da República.
            A idéia do nacional era praticamente desconhecida em 1850, salvo pela presença de Caramuru, poema épico de Frei Santa Rita Durão, entre os assuntos estudados (em 1851 inseriu-se também O Uraguai de Basílio da Gama), mas vai-se aos poucos conquistando posição. Inicialmente, isto ocorre mediante a inserção, no programa de 1860, de uma disciplina chamada literatura nacional, que não só ocupa posição subalterna em relação a retórica e poética, mas também inclui literatura portuguesa, à qual se subordina a brasileira.
            Somente em 1858, nas disciplinas constantes no Colégio Pedro II, aparecerá a menção explícita à literatura brasileira, na disciplina retórica e poética do sétimo ano, mas ainda subordinada à literatura portuguesa: história da literatura portuguesa e nacional. Não havia compêndio próprio. O primeiro compêndio adotado data de 1862, o livro Curso elementar de literatura nacional de autoria do Cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro; em 1877, Compêndio de literatura estrangeira e brasileira, aprovado pelo governo; para 1879 e 1881, Le Brésil littéraire de Ferdinand Wolf; para 1882, o mesmo Le Brésil littéraire (sexto ano), História literária do cônego Fernandes Pinheiro (sétimo ano) e Resumo da história literária, obra em dois volumes, publicada em 1873; para 1882 e 1883, Le Brésil littéraire (sexto ano) e Histoire abrengée des principales littératures de l'Europe ancienne el moderne de L. L. Buron, com apostilas complementares do professor.
            A partir do programa de 1879 até o de 1885, a literatura portuguesa perdeu status acadêmico em decorrência do divórcio entre os ensinos de literaturas portuguesa e brasileira. Esta esta passa a ser presença exclusiva na disciplina literatura nacional, aquela ou era remanejada para literatura geral e história literária - ora merecendo apenas referência sumaríssima (1879 e 1881), ora ocupando alguns pontos entre os dedicados a literaturas estrangeiras (1883 e 1885) -, ou se reduzia a menção mínima, como influência exercida na literatura brasileira (1882). A consumação do processo de institucionalização da literatura brasileira no currículo escolar ocorreu em 1892, vigorando nos anos subseqüentes, até 1897.
            O elemento nacional, portanto, alcançou domínio definitivo somente em 1888 com a publicação de  História da literatura brasileira de Silvio Romero, obra nacional apta a substituir, com vantagens para o processo de consolidação institucional da disciplina, o tratado estrangeiro em que os alunos estudavam até então Le Brésil littéraire, de Ferdinand Wolf.
            Estudar literatura no Brasil oitocentista implicou tensão entre a perspectiva  universalista e a perspectiva nacional. Deve-se reconhecer a inevitabilidade disto, tendo em vista as particularidades da formação da sociedade brasileira, igualmente oscilante entre o impulso cosmopolita de identificação com a Europa e a correspondência aos apelos particulares da circunstância tropical-americana. É de se destacar que, com exceção para o que ocorreu no período de 1879 a 1885, o status privilegiado à literatura portuguesa.
            No que se refere aos nossos currículos universitários, há a equiparação da literatura brasileira e literatura portuguesa, concedendo a condição de disciplinas obrigatórias a ambas nos cursos de Letras, privilégio que não conseguiram outras literaturas nacionais de língua portuguesa, como é o caso das antigas colônias portuguesas na África, muito embora sejam reconhecidas suas literaturas pelo mesmo critério político que emancipou as literaturas americanas no século XIX.

Você poderá encontrar este texto, também, no Diário da Serra:
http://www.diariodaserra.com.br/showtangara.asp?codigo=154375

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