quarta-feira, 21 de março de 2012

AVALIAÇÃO E NOTA

            Talvez seja o sinal mais escandaloso do nosso estágio de desenvolvimento a necessidade de ter de avaliar nos cursos superiores de ensino. O fato que configura tal escândalo não está na aferição do conhecimento do aluno, mas na sempre pronta preocupação em negar a aprendizagem.
De qualquer forma, sempre uma tortura avaliar, tortura ao avaliador, porque por mais que tenhamos cuidado, critério estamos circunscritos as nossas inevitáveis limitações e sabemos disto. É comum perceber-se errado algum tempo depois de termos avaliado (conferido nota) e, geralmente, não há mais o que fazer. Fica a aprendizagem ao avaliador na consciência do seu erro. O avaliado, injustiçado, aprende também, com o exemplo que a história é prenhe de injustiças ou talvez que "o mal é bom e o bem cruel". Mas não vamos aqui banalizar o problema. É certo que o que parece certo é certo, porque sem nenhuma certeza estancaremos inertes e impotentes. Bem, é por isso, também, que privilegio mais a reflexão do que o acerto. O acerto se dá com a reflexão, mas não necessariamente. A reflexão se não dá frutos de imediato, a longo prazo, sem dúvida, dará. O acerto pode ser circunstancial e morrer em si.
            Não tenho feito, no entanto, das minhas avaliações uma arma de exclusão em nome desta ou daquela causa. Talvez tenha errado na dose, na medida, isto é, na nota. A necessidade de auferir uma nota (pelo menos eu vejo isto como necessário, ainda) sempre me causou bastante inquietação. Penso que se faz necessário justificar ao aluno a nota e não impor uma aceitação incondicional. Um grande momento este, da justificativa, em que avaliador põe a cara a ser avaliado. Neste sentido, insiro no papel da prova minhas observações, mas isto não me basta, mesmo porque não tenho conseguido ser suficientemente claro nestas observações. É evidente que a nota em si diz muito do que é certo ou errado na concepção do professor, mas, em se tratando da nossa área (ciências humanas), o processo é mais significativo que o resultado e, batendo novamente na ideia do parágrafo anterior, um erro carregado de reflexão pode ser melhor que um acerto que não diz nada do processo.
            É preciso garantir igualdade de oportunidades e isonomia, que são paradigmas sociais, na atribuição da nota. Ninguém duvida disto. Utilizo-me dos seguintes recursos: aplico uma "nota preliminar" que seria uma aferição individual para depois chegar à nota definitiva (final) que é uma ponderação entre a nota preliminar e o nível da turma. Vejam que ao estabelecer este nível entra a inevitável auto-avaliação: terei eu errado, didática ou pedagogicamente, a ponto de prejudicar o desempenho dos alunos? Onde residirá o erro? Na verdade, no que se refere ao equilíbrio do avaliador, na ponderação dos eventuais erros, não quero deixar conselho aqui. Tenho, ainda, isto muito mal-resolvido comigo. Mas tenho tomado algumas precauções como tentar não saber de que aluno é o texto que estou lendo, de uniformizar o modelo do papel da prova e tomar fôlego diante das caligrafias quase inelegíveis.
            O que ocorre é que a nota preliminar, depois de algumas avaliações, deixa de ser preliminar, no sentido da individualidade com eu a queria: ela vai se carregando das impressões das avaliações dos demais alunos. Soma-se a isto o fato de nunca se conseguir tomar de um só golpe todas as avaliações. Costumo inserir a data com que fiz a primeira leitura, no final da prova. Curioso é que outro momento de avaliação pode trazer novas perspectivas. Trata-se de uma complexa questão de ânimo que talvez a poesia explique melhor que a racionalidade, como aponta a "Poética" de Vinícius (De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo). O fato é que a tendência, nestes casos, é submeter todas as provas ao mesmo critério. Por vezes, portanto, temos várias notas preliminares, e várias leituras, antes de alcançar a nota final.
            A nota final, por fim, fica circunscrita à turma, às ponderações do avaliador sobre o seu trabalho e ao contexto ou ânimo do avaliador.
            Há outros pontos menores que entram no processo. Aponto, de passagem, a política da instituição, em que um mero rigor avaliativo pode abalar a sobrevivência do curso; e a política de ensino que, no caso, oscila entre o inclusionismo e o exclusionismo, ambos maléficos como todos os ismos.
            A pilha de trabalhos sobre minha mesa suscitou tais reflexões e o trabalho ficou por fazer. Vamos a ele que inevitavelmente acordará novas reflexões.

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