quarta-feira, 7 de março de 2012

ASPECTOS DO ENSINO DA LITERATURA

            Dizer que a literatura não serve para nada consiste numa forma primária de ironia. Não serve para nada em se pensando em mensagem utilitária para o aqui e o agora das exigências do mercado. O desserviço neste sentido implica um serviço bem mais essencial.
            Quando pensamos literatura não estamos considerando qualquer produção escrita. Estamos falando de ficção, lirismo, subjetividade, conotação. Você não destila um conceito de um livro de literatura, mas sente-se diferente por conta desta compreensão das coisas que se dá pelo viés do sentimento: compreender sentindo. É uma maneira essencial de apreensão das coisas o que a literatura proporciona, uma compreensão da vida e dos requintes e idiossincrasias de uma cultura, uma forma especial de conhecimento, complemento da vida, nunca substituto, mas um arranjo (estetização) que alarga nossa compreensão da realidade. Literatura é uma mentira que amplia e ilumina a verdade das coisas. Eis, pois, um paradoxo inerente a nossa complexa natureza.
            A natureza humana é essencialmente estética e lúdica. Nosso desejo de ficção é uma prova cabal disto e o sonho é um exemplo inequívoco deste desejo de ficção. E não sonhamos somente dormindo, não é verdade? E a organização da realidade de uma forma compreensiva exige que se venha à clara consciência as contradições mascaradas no caos. A verdade conceitual tem suas limitações nesta tarefa. É quando a ficção nos salva, como já disse, organizando nossa compreensão pelos sentidos.
            Por fim, se torna inócuo discutir para que sirva a literatura diante da verdade de que não vivemos sem ela. A mais ferrenha ditadura não pode inibi-la como o prova nosso recente estado de exceção, a partir dos anos 60 do século passado, mas aguçou-lhe efervescentemente.
            Bem, este debate veio à tona em sala-de-aula, quase que por acidente, em meio à aula de literatura brasileira, curso de Letras, UNEMAT, Tangará da Serra, Mato Grosso, Brasil... E por mais que eu rearranjasse minha fala ficava-me sempre a sombra da incompreensão por conta, talvez, do pragmatismo da nossa realidade, infensa à metafísica da arte e, também, a dificuldade que o curso oferecia. Na verdade, a frágil convicção dos alunos já havia sido abalada pelo próprio corpo docente no sentido da desnecessidade de estudar literatura. Guerra territorial em nome da interdisciplinaridade. Isto, por excêntrico que possa parecer, em um curso de Letras. Este fato, aliás, foi o principal motivador deste artigo. Ora, por que estudá-la?
            Tateei respostas: as implicações da academia em torno da complexidade do conceito do que seja literatura, a formação de docentes no reconhecimento do tipo de conhecimento que representa a literatura e a necessidade de seleção do material adequado para a escola em todos os seus níveis. Objeto problematizável a literatura, desde sempre, as primeiras indagações neste sentido remontam às primeiras produções... mas, por mais que argumentasse permanecia um estranho vazio.
            Depois, terminada a aula, pensando, rememorando algumas falas, conclui coisa que já sabia, cujo acontecimento significou exemplo esclarecedor: faltou-lhes, desde sempre, a literatura em suas vidas, notadamente na escola.
            Disse, pouco acima, que não vivemos sem a literatura e agora digo que padecemos o problema da sua ausência no próprio curso de letras.
            Se, por um lado absorvi o fracasso de minha aula, por outro acreditei na recomposição do tempo da verdade da literatura. Diante do estudo de diferentes áreas lá estará ela, respondendo e anunciando caminhos. E mesmo que perspectivas reducionistas preguem a desnecessidade do seu estudo haveremos de estudá-la como assim tem feito antropólogos, sociólogos, psicólogos, historiadores e os profissionais da palavra do curso de letras. Este último, o seu lugar epistemológico.

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