sexta-feira, 4 de setembro de 2015

VIDA E FELICIDADE, MATÉRIA E ESPÍRITO

Este artigo foi publicado anteriormente no Jornal Tribuna de Tangará. Segue, abaixo, a referência:

GATTO, Dante. Vida e felicidade, matéria e espírito. Tribuna de Tangará, Tangará da Serra, 12 ago., 2015. p.02-02.

          Entendo felicidade um estado de completude que se alcança com uma ampla compreensão da vida, do ser, e, é claro, de nós mesmos. O paradoxal da minha fala, mesmo porque a condição humana é extremamente paradoxal, é que conquistamos a felicidade por meio do sofrimento, porque será experimentando os nossos limites que chegaremos a uma compreensão mais acabada de nós mesmos. Vejam que dentro da doutrina espírita, por mais precários que sejam ainda meus conhecimentos, esta perspectiva é mais facilmente compreendida. O que eu quero dizer é que libertos da escravidão do corpo e dos valores do mundo, no espaço, digamos assim, puro do espírito encontramos mais argumentos para explicar a felicidade por meio dos sofrimentos, porque não estaremos mais presos à matéria. Dizendo de outra forma ainda, a felicidade do espírito, que é, por fim, a felicidade que mais nos interessa, implica a superação da matéria física, ou seja, um olhar mais íntimo para o que verdadeiramente somos.
        O animal humano constitui um fenômeno que o distingui dos demais animais e isto está na sua capacidade de disseminação cultural, isto é, herdamos dos nossos pais e passaremos aos nossos filhos hábitos, costumes, valores muito próprios da nossa experiência do mundo. Isto se chama cultura: a maneira de andar, de dormir, de comer, de vestir, de falar ou mesmo de se calar fazem parte da nossa cultura. Somos, por fim, uma expressão cultural. É fácil entender que o espaço físico em que vivemos, a geografia, as condições climáticas são importantes para a nossa cultura; bem como a história política e social, democracias e ditaduras, herança religiosa e filosófica influenciam nossa maneira de estar e ser no mundo. A cultura envolve instituições e rituais. Uma cultura não se julga, porque ela é orgânica. Simplesmente é. Por fim, a cultura nos identifica e nos limita. Por vezes, se aceita incondicionalmente uma determinação cultural, sob pena de se pagar um preço muito caro. Está, pois, no processo de desenvolvimento cultural de um povo a sua capacidade, sempre crescente, de assimilação cultural. O que não podia ser aceito acaba sendo compreendido e assimilado.
         Há duas perspectivas de assimilação de uma cultura que eu poderia resumir em dois processos: o racional (científico) e o artístico. Como uma cultural muda, racionalmente? Por um processo de transformação que damos o nome de dialética. As leis da dialética podem ser resumidas no trinômio: tese, antítese e síntese e o grande motivador das transformações é a contradição. Quando uma verdade (tese) apresenta uma contradição constitui-se a antítese (anti-tese) que por sua vez apresentará também sua contradição. A síntese, por fim, terá os elementos da tese transformados pela antítese, identificados em ambas as contradições. A constatação primeira que suscita o processo dialético é a fragilidade de toda a verdade. Não há verdade absoluta. Toda verdade é relativa, e, conforme ampliamos o nosso olhar para a vida identificamos a contradição que destrói a verdade enquanto verdade. A condição feminina é bom exemplo. A ordem patriarcal dividia as funções de homens e mulheres: aqueles provedores e a estas restava o papel de cuidar dos demais detalhes da organização familiar. Aqueles transcendiam; estas imanavam. Aos homens a criação; às mulheres a responsabilidade de criar condições propícias para que o homem se fizesse grande. Um ditado popular é exemplar do fenômeno: “por detrás de um grande homem há sempre uma mulher”. É mais ou menos isto. Mas as mulheres não quiseram ficar “por detrás”, quiseram assumir a realidade, criar, transcender. Aliás, prerrogativas inerentes, ontológicas, do ser. É as mulheres fizeram, e vem fazendo, a grande revolução sexual e social; e o mundo se transformou e a cultura assimilou, não é verdade? E as verdades, e os tabus, foram caindo por terra e chega a ser até incrível que, um dia, foram verdades aceitas sem contestação.
         Estamos falando de um processo racional, as transformações operadas pela lógica da racionalidade. Entendemos que a razão não é resultado de um mecanismo desprovido dos sentimentos humanos, não é? Mas quando os mecanismos racionais atendem prioritariamente a ordem coletiva, a praticidade da organização social, cuja ordem maior é o bem estar geral, dentro de uma média de apreensões humanas, tem-se claro que a razão não dá conta de todos os homens com as particularidades das individualidades.
         Será, pois, a particularidade da individualidade responsável, também, pela transformação da sociedade, e isto se dará por meio da arte. Qual é a diferença do processo artístico em relação ao racional e dialético? Se este deduz a partir de uma verdade comum a todos os homens, inferindo-lhe as contradições, a arte infere os efeitos da realidade em uma individualidade privilegiada, o artista, e oferece-nos uma verdade inusitada, mas profundamente humana. Tudo funciona como se ele, o artista, perguntasse para si mesmo, acordando os elos com a divindade, sobre a verdade do ser. A verdade que escapou de outros homens, unidos pela coletividade e só sua sensibilidade aguçada interpretou. A arte, sendo social, se efetivará com a confirmação da coletividade desta verdade individual. De resto, a arte é inerente a todos os homens, sem distinção.
Bem, elaborei todo este discurso para dizer que o mundo e a vida se transformam. Transformamo-nos muito no último século e haveremos de nos transformar muito ainda, cada vez é mais intensa a velocidade das transformações, e penso que o mais importante diante de tal constatação é a postura que devemos ter em relação à vida material. Penso que não devemos negar e lutar contra as mudanças, mas também não devemos banalizá-las. A vida é o mais importante e a vida é aceitação, resistência e espaço propício à superação do ser.
O espiritismo nos aponta preliminarmente e privilegiadamente para a eternidade do espírito. Viveremos eternamente, nos libertaremos desta condição primitiva que nos atrela ao corpo físico. Ora, somos, em essência, espírito. A matéria corpórea é apenas uma prisão que nos libertaremos com a morte. Deveríamos, por conta disto, não nos apegar tanto a estar entre os vivos, mas ansiar pela suprema liberdade, e a verdadeira vida que é a vida espiritual, mas não é isto o que acontece: queremos a vida material e é necessário e sábio que assim seja, na medida da necessidade da aprendizagem do espírito. O homem é o único animal que sabe que vai morrer, mas vive como se fosse eterno e está nisto a mais profunda verdade da vida, paradoxal como tudo que se refere ao ser. 

domingo, 23 de agosto de 2015

MARIA, NO RITMO DO CORAÇÃO

Este conto foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue referência abaixo:

GATTO, Dante. Maria, no ritmo do coração. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, 26 ago. 2015. p.02-02.



Dante Gatto

Voz de criança (gritando): mãe, mãe, mãe....
Voz de mulher (gritando): Maria...
Voz de homem (gritando): Maria...
Maria: calma, estou aqui!
Criança: mãe, estou com fome.
Mulher: Maria, me faça um favor...
Homem: Maria, vem aqui.
Maria: já vou, já vou...
Maria (em outro tom, como se falasse para si mesmo): a eterna fome dos homens.
Maria (em outro tom, como se falasse para algo transcendente que, no caso, é o público): se você perguntar a uma mulher o que é ser mulher, certamente ela terá uma resposta que, independente das palavras e da argumentação, estará temperada de mágoas. E é isto que deveria ser a coisa mais significativa para se pensar na condição da mulher. Mesmo porque ser mulher não é uma condição, nem um estado. Ser não é estar. Talvez seja até me permitido dizer que ser mulher é compreender isto, chorando, porque vivemos a dolorosa tensão entre aceitação e superação, de resto condição do ser humano.
Mulher: Maria, o que está fazendo?
Maria (em outro tom): pensando.
Mulher: Mas precisa parar tudo para pensar?
Maria (para o público, admirada da súbita constatação): Sim, é preciso parar tudo para pensar. É preciso se sintonizar.
Mulher: Teu homem e teu filho estão te chamando, precisam de você.
Maria: sim, eu sei.
Mulher: e vai ficar ai, pensando? (em outro tom) Bem, eu preciso que você me faça um favor.
Maria: diga.
Mulher: preciso que você fique com meus filhos, hoje à noite.
Maria: sim, mas o que aconteceu?
Mulher: visitas em casa.
Maria: não entendi.
Mulher: minha futura patroa virá a minha casa. Ela quer ver como cuido da minha casa para decidir se me contrata ou não.
Maria: Nossa! Vote!
Mulher: e ela quer empregada sem filhos.
(Maria tem um acesso de tosse como se engasgasse com a saliva).
Maria (conseguindo falar): mas, você vai esconder o fato de ter filhos?
Mulher: Vou.
Maria: mas, por favor, pense bem...
Mulher: Maria, não precisa pensar não. Eu trarei as crianças às seis horas.
Maria (meio inconformada): então tá!
Maria (em outro tom, como se falasse para algo transcendente que, no caso, é o público): ser mulher é pensar sentindo. Tentar não pensar não resolve os problemas. Só haveremos de adiá-lo para outras gerações. Pare, pense, sinta. Mesmo que não for possível nenhuma revolução ela haverá de se construir em você.
Criança: mãe, tá chorando?
Maria (para o público): Temos de ter clareza da nossa luta...
Homem: tua mãe fica linda quando chora.
Maria (para o público, continuando a fala anterior): clareza da nossa luta, contra todas as formas da ideologia dominante, até as mais doces.
Homem: como?
Maria: o almoço está na mesa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CIDADES E MULHERES

Este conto foi também publicado no Jornal Tribuna de Tangará. Segue referência abaixo:

GATTO, Dante. Um conto: Mulheres e Cidades. Tribuna de Tangará. Tangará da Serra, 19 ago. 2015. p. 02-02. 


              Era sempre a mesma coisa. Ele começava a falar das cidades e descambava falando das mulheres que passaram pela sua vida. “Cada cidade tem sua mulher correspondente”, me dizia. Não havia como interpor-lhe uma réplica. Por que desdize-lo? As histórias tinham sabor, deleite. “Havia a mulher perfeita que emanava as mesmas vibrações da cidade numa fluidez cósmica”. Eu nunca entendi muito bem isto. Parece loucura, não é? A gente tem de ir se acostumando com a idéia. Aliás, eu já experimentei as cores dos sentimentos. Lembro-me bem quando era criança e me aninhava solitário, abatido por alguma tristeza e com os olhos fechados era invadido por cores cambiantes. Quer saber, a tristeza é azul. Minha tristeza era azul, vários tons que se sucediam, se mesclavam, fugiam. Lembro-me: havia dias que eu podia… beijar o cheiro áspero das flores. Não estou exagerando. Não é loucura não. Rilke chegou a dançar o gosto da fruta provada.
          “A cidade vai te entrando na alma”, ele me dizia, “uma poderosa e particularíssima combinação de efeitos, do ruído das ruas, do barulho das construções, prantos, gritos, imprecações… O vagido da fome e o tilintar do ouro se confundindo. E o cheiro do mato, pisado, que nasceu na reentrância da calçada, o brilho do fogo-fátuo…” Neste momento ele emergia num estado de transe e deslizava para um lirismo alucinado: “a cidade vai te entrando na alma e você não é mais você. Você está nela. Sonolência e êxtase te dominam. É quando te chega esta mulher, momento máximo que a cidade oferece”.
            “Há cidades homens”, uma vez ele me contou, “mas são raras. Barra do Bugres parecia uma cidade homem. Era mulher, por fim. Jovem, de uma sexualidade indistinta. Olhando bem que a gente via as formas. No seu olhar um convite intenso. Ela abre as pernas, ao sentar-se, de uma maneira que em outra seria indecente. Você tem medo de tocar, apesar do convite. E fica olhando. Você gostaria de olhá-la mais de longe. Ela atende sem trocar palavra. Moleca. Diaba. E quando volta, parecendo cansada, com música na voz, aproxima-se mais. Você tem medo. O amor, às vezes, prescinde a proximidade e requisita espera. Ela repete o ritual numa dança mística e hipnótica e se aproxima mais, e mais, e mais… e quando vai embora você não consegue conjuminar que rumo tomou. Torpor, estupor, trauma, decúbito… Resta sonhar os signos do regresso, mas ela não voltará mais. É curioso que ela não volta enquanto você espera. Um dia, você a encontra por acidente numa rua qualquer e não há convite no seu olhar, sua voz e insipidamente adulta e, contraditoriamente, você a ama de uma maneira absurda. Um dia, quando você pensa já tê-la esquecido, ela aparece, com sua voz de criança e com sua dança mística. Não há o que fazer. Não há o que dizer”.
     Ele então suspirava profundamente.
            Nas primeiras vezes, eu cheguei a perguntar-lhe o que tudo isto tinha quer ver com a cidade. Ele me olhava com desdém, nestas ocasiões, e não falava nada. Ficava olhando para um ponto indefinido como se houvesse mais alguém escutando o insólito relato. Alguém que o compreendesse. Uma vez disse, dando de ombros: “as coisas são como são”.
         Aliás, é bom que eu diga: isto não é ficção. É crônica. Aconteceu. Procuro reconstituir com o máximo de fidelidade possível.
    A mulher correspondente a Tangará da Serra não era tão jovem. Ele não gostava de ser inquirido a contar alguma coisa, me disse, quando eu lhe encomendei esta história. (Bem, pra mim é uma criança, linda e tímida e não cabe colocá-la na esfera das relações amorosas). “Pra tudo existe o momento oportuno”, dizia. “Cidades novas podem corresponder a mulheres vividas e vice-versa”. Afinal, ele se abriu: “Tangará da Serra foi chegando com seus sons, cheiros e fantasmas. Não foi rápido não. De repente você a vê por toda a parte, a ponto de se perguntar se é mais que uma. Esbarra nela no supermercado e sente um amargo prenúncio. O amor não sabe não doer. Ela é de uma timidez estranha, daquela que te cumprimenta com o olhar e passa apressada. É bom vê-la caminhar e tomar distância. Tudo parece respirar no seu ritmo. Uma vez, me pus tão absorto que fiquei alquebrado ao horizonte em que ela desapareceu. O que me acordou do êxtase foi uma brisa destas que estremece: era ela, vinda da direção oposta, desafiando o tempo, o espaço. São assim essas mulheres. Um dia você a pega num flerte. Ela não disfarça, mas continua infensa a toda gentileza. Você não se lembra de ter-lhe dado o endereço e eis que ela aparece à tua porta. Os móveis parecem conhecê-la, as paredes denunciam sua presença, aproximando-se como moldura. As coisas ficam vivas, adquire cor, o ar tem cor para acentuar seus olhos cristalinos. O que se há de dizer. O que se há de fazer.”
Nestas circunstâncias, não adiante que ele não conta os detalhes e se irrita como se a imagem criada dissesse tudo. “É tudo o que importa”, dizia.
    “Um dia, você a encontra num restaurante e tem um impulso de abraçá-la e beijá-la, mas ela está acompanhada de um sólido burguês, de botas de couro e braços cabeludos. A aura em torno dela é a mesma, mas você já não pode penetrá-la. O sentimento é indescritível… uma mágoa pesada e seca. Pesada e seca. Mas você não consegue não amá-la, não consegue culpá-la, nem esquecê-la. Ela voltará no ritmo da cidade.”
    Eu fico pensando coisas do tipo cidade-adúltera (coisa horrível, não é?), fazendo relação entre a mulher e a cidade, mas não digo nada, porque sei que ele vai abominar a ideia é dirá coisas enigmáticas e vagas. Também não gosto desta ideia. Fico imaginando o que ele pensa: não se culpe a mulher, é a cidade. Não se culpe a cidade, são as incríveis contradições humanas. Toda a ordem racional dos valores humanos perde sentido. Ora, as coisas são como são. Lembro-me que ele disse: “Tudo aquilo que necessita de explicação não vale a pena”.
     Ele foi de mudança para Cáceres.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

DADOS DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Durante, o romantismo, mais do que em qualquer outro período, insistiu-se na necessidade de se afirmar a particularidade brasileira. A independência fez parte do cenário histórico. O romantismo europeu reagia também à universalidade da Ilustração, voltados à nacionalidade como emancipação mental. A busca da autonomia evidencia-se como um desafio. Fundem-se, esforços diversos, num mesmo objetivo: a criação da nação brasileira. Trata-se de projeto político deliberado, amparados por D. Pedro II, que unifica e justifica a busca romântica do literário e historiográfico. Acreditava a elite intelectual do Segundo Reinado, servida das ideias românticas, que era preciso haver literatura e historiografia brasileiras para a existência da nação. Literariamente, o que fora produzido antes adquiria um sentido de retrospecto por conta do empenho no estabelecimento de um cânone literário. Antes do romantismo não se fazia propriamente literatura brasileira como consciência. Não se constituía como sistema como aponta Candido (Formação da literatura brasileira).
Curiosa e ironicamente, são estrangeiros que fundam a crítica literária e a historiografia romântica brasileira: o francês Ferdinand Denis, os ingleses Robert Southey e John Armitage, e o bávaro Karl Friedrich Philip von Martius. Denis, já em 1826 (Resumé de l’histoire littéraire du Portugal, suivi du resumé de l´histoire du Brésil), aponta a necessidade de realizar a independência literária do Brasil. Isto, aliás, será objetivo de quase todos os intelectuais brasileiros. Deveríamos, pois, desenvolver vida autónoma, superando as formas mentais da época da colônia, o que é mais particular ao Brasil: a combinação de diferentes raças, cuja acomodação ao nosso meio natural, resultaria um caráter original ao povo. O indianismo surge de tal preocupação.
       Dez anos depois dos pioneiros estrangeiros que nossos literatos (Domingos José Gonçalves de Magalhães, Manuel Araújo Porto Alegre e Francisco de Sales Torres Homem) criam a Niterói, revista brasiliense de ciências, letras e artes (1836), mas em Paris. A Niterói insere-se num quadro maior de publicações, que, antes e depois dela, procurarão usar a cultura com objetivos práticos, de promoção do progresso material. A Minerva Brasileira, de 1843, no Rio, continua o programa proposta por Magalhães. A Revista Guanabara (1849) também é editada pelos românticos Porto Alegre, Joaquim Manoel de Macedo e Antônio Gonçalves Dias. Em 1859, surge a Revista Popular e durará apenas três anos.
     Há uma postura mais independente à medida do afastamento do Rio e o domínio dos literatos em torno de Magalhães. Surge, em São Paulo, entre os estudantes do Largo de São Francisco, a poesia ultrarromântica (Alvares de Azevedo, Aureliano Lessa, Fagundes Varela) e mesmo a poesia abolicionista de Paulo Eiró. Enfim, a temática indianista e a preocupação nacional se fazem menos presente.
As antologias literárias também fazem parte do esforço de dotar o Brasil de autonomia cultural. Nelas procuram estabelecer um cânone brasileiro, conforme entendiam que as obras deveriam expressar “ideias e sentimentos do país”. Podemos citar Januário da Cunha Barbosa (Parnaso brasileiro, 1829), J. M. Pereira da Silva (Parnaso brasileiro, 1843), Francisco Adolpho de Vernhagem (Florilégio da poesia brasileira), Fernando Pinheiro (Curso de literatura nacional, 1862), Ferdinand Wolf (O Brasil literário, 1862)
      Além das antologias e revistas, havia uma preocupação na autonomia da língua falada. O romantismo alencariano está neste projeto. Ora, deveríamos ser diferentes, sofrendo a influência da mestiçagem racial, cultural e até mesmo linguística.
    Nossos românticos estão de acordo no que se refere a necessidade de emancipação mental do país. A divergência está em como narrar a história dessa emancipação. Para alguns, como Magalhães, a independência literária coincide com a emancipação política, mas há discordância como a de Nunes Ribeiro que acredita que a individualização da literatura brasileira antecede à formação do Estado no Brasil, já que refletia as condições particulares do país. A identidade nacional está relacionada com a independência, mas não inteiramente coincide com ela. Ora, a autonomização de interesses e estilos de vida entre americanos e europeus é iniciada na colônia, toma força com a emancipação política e o processo avança.

         Enfim, os brasileiros, desde a colônia, estiveram unidos no projeto de que o Brasil tenha uma literatura própria, que exista como nação independente.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

RICUPERO, Bernardo. A independência literária. In: O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 85-111.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

ASPECTOS DO SUCESSO DE MACHADO DE ASSIS

A determinado momento da minha vida acadêmica, mais necessariamente quando li o conto “Missa do Galo” tomei por empreita escrever alguma coisa sobre o narrador machadiano. “Missa do Galo” de fato é o conto mais popular de Machado juntamente com “A Cartomante”, e guarda a mesma fórmula narrativa, em se pensando no narrador, do romance Dom Casmurro. No caso, o narrador protagonista (terminologia de Norman Friedman) que narra de um tempo posterior aos acontecimentos que estão sendo narrados (Genette tratará o modelo como voz autodiegética em nível extradiegético). Quer dizer, o narrador é personagem, no caso, o protagonista, e narra na maturidade um acontecimento que ocorreu quando ele era jovem.
Os narradores (Nogueira e Bentinho) não explicitam a tensão do que pensava (jovem) com o que pensa (velho), mas dão uma unidade, um remate à narração. A tensão jovem/velho fica escamoteada em nome do discurso produtivo à narrativa. O velho tentará fazer coerente o pensamento do jovem, mas não é o jovem que está narrando e fica uma lacuna entre o que o jovem diria e o que o velho diz. O que quero dizer? Quero dizer que compomos o que pensávamos mediatizado pelo que pensamos. Este processo absorve pesada carga ideológica. Bem, é isto. O que importa é a ideologia.
Todo discurso traz em si, inevitavelmente, uma ideologia. Tolice pensar que podemos se fazer seres desideologizados. Talvez a melhor maneira de abarcar a questão seja pensar no discurso crítico literário como fez Barthes (“O que é a crítica”. In: Crítica e verdade) uma vez que sua prerrogativa será não esconder a ideologia pelo silêncio, porque não estará procurando verdades, mas sim validades. A validade é a consciência da transitoriedade da verdade. A literatura é um sistema de signos, uma linguagem, em que o essencial não está na mensagem, mas no sistema. Mas, é claro, que a prerrogativa de Bentinho não estava em pensar Capitu em busca de validades, mas ele queria verdades por conta da dor de corno, não é? Se não fosse assim não seria verossímil. O que quero dizer é que a grande atração que a obra nos oferece está em como o narrador tenta esconder a ideologia que emprega em nome da afirmação de verdades. Por fim, a personagem Bentinho queria verdades, mas o autor implícito trabalhava com validades e carrega o narrador consigo neste objetivo.
O que sustenta o discurso de Bentinho em volta à possível traição de Capitu, como é essencial à toda narrativa, é a verossimilhança. Era preciso justificar o fracasso da relação com argumentos plausíveis, temperado com dúvidas coerente com a duração da mesma. Um jogo em que todo efeito deve ter uma causa proporcional. Acho exagerado, por exemplo, o ciúme de Otelo, mesmo com a coerente e forte armação de Iago. Mas o drama de Bentinho passa bem, acomodado a uma narrativa, ao discurso indireto, subjetivo (subjetividade do narrador) em que Capitu não tem vez nem voz.
Talvez este seja um ponto pouco discutido da arte narrativa. O discurso ideológico construindo uma contra-ideologia. No efeito estético, em se pensando em Dom Casmurro, a contra-ideologia vence, porque Capitu acaba se tornando ícone dos movimentos feministas, enquanto Bentinho acabou identificado como machista, misógino e até homossexual.
O fenômeno se explica pela maneira como se lê como argumenta Jorge Luís Borges. O que Machado descobriu que transcende qualquer fórmula? Descobriu que a inquietação humana irrefreável do leitor é produtiva e carece de espaço para se desenvolver. O escritor tem que dar espaço ao leitor para que ele participe da história. Se o narrador, quer intra ou heterodiegético, tende a explicar tudo em discurso objetivo e avaliativo o que sobra ao leitor? Concordar e apreciar a construção estética ou a erudição do narrador? Ora, não tem dúvida que uma prosa conceptista, por exemplo, tem justificadamente seus apreciadores como, por vezes, lemos de bom grado um tratado filosófico. Mas na ficção, a lacuna bem colocada, os silêncios, as elipses, por exemplo, suscitam inferências e o leitor entra em campo pronto e animado para julgar este ou aquele personagem como se fossem vivos. Ora, o autor emprestou-lhes vida com os recursos da arte literária. A arte é criação e a criação suscita a vida.

As perguntas que insurgem do processo ganham respostas sempre transitórias. Sabemos disto, não é? Mas tal evidência não inibi o processo: não deixamos de questionar. Por fim, esta nisto o sucesso de Machado no que se refere à arte narrativa. Ele descobriu que ansiamos por perguntar e ofereceu condições propícias para a realização de tal anseio. E Bentinho e Capitu sobrevivem porque suscitam perguntas da nossa inconclusa natureza humana.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O QUE É CORRUPÇÃO

Este texto foi publicado anteriormente. Segue, abaixo, a referência: 

GATTO, Dante. O que é corrupção. Diário de Cuiabá, Cuiabá (MT), p. 3, 14 dez. 2008.

Sempre pensei e me utilizei do termo corrupção considerando o seu sentido lato e acho saudável tal posicionamento, uma vez que implica repensar as práticas do cotidiano, nossas pequenas ações, refletindo nos seus desdobramentos. Ora, o roubo, como se entende vulgarmente o termo corrupção, se faz em condições propícias para tal. Tais condições propícias configuram corrupção, não é? Aliás, o sentido etimológico da palavra guarda tal dimensão: “corrupção, do Lat. Corruptione, s. f., acto ou efeito de corromper; podridão; decomposição; putrefacção; fig., devassidão; adulteração; suborno; prevaricação”.[i]
A acepção de roubo corresponde, inclusive, ao sentido figurado. Em outra fonte, corrupção significa “deterioração, quebra de um estado funcional e organizado”.[ii]
Há até os que a concebem inevitável:

É inseparável, a nossa condição de bicho social, com a de animal, ainda que humano, porque as traves que nos sustentam são as mesmíssimas que tramitam a existência de todas as espécies. É o Instinto que nos impõe o jogo de sedução; que nos impõe a luta pela comodidade e pela sobrevivência, sempre como partículas que devem obediência ao estabelecimento do Universo. Daí as inconstâncias, entre paixões e tédio. Até que, gastos, a Vida nos recicla e nos transforma – por mais plásticas que façamos – e nos substitui por outros que, mais capazes, mais fortes, se apaixonam e se entediam, suportando inconstâncias, na manutenção dos ciclos de mimetismos e de disputas.[iii]

A corrupção torna-se um estado de coisas tidas como normal, que se insere na cultura.
Corrupção, ainda, “pode ser definida como utilização do poder ou autoridade para conseguir obter vantagens, e fazer uso do dinheiro público para o seu próprio interesse, de um integrante da família ou amigo”.[iv]
Acomodação, servidão, negligência, incompetência, omissão, conivência, não participação etc. são sintomas, causa e efeito de um estado de corrupção. Rui Barbosa refletiu sobre o fenômeno:

Regimens há, que são verdadeiras sensalas morais, onde as almas corruptas de servir se nutrem da corrupção, no ar corrompido que as envolve. No ambiente livre não há exalações, que perdurem. A luz, o vento, o oxigênio tudo levam, ou limpam, tudo regeneram, ou depuram. Mas debaixo das telhas, onde vegeta e mirra a servidão, não há miasma, que não pegue, não vingue, não se eternize. Cada um dos que vão chegando, se aduba dos outros; com eles se cruza e recruza; novas espécies lhe surgem do coito sutil; de hibridação em hibridação, de multiplicação em multiplicação, um mundo incalculável de malignidades se enxameia, coalha o ar, e desoxigena, acaba por o tornar irrespirável. Aí não surdirá mal, que se elimine: todos se perpetuam; com os antigos colaboram os recentes; do ajuntamento de uns e outros se vêm gerando novos, pelo concurso destes com aqueles, crescem ao infinito em números, em diversidade, em virulência os contágios, as intenções, as pestes.[v]

A idéia do que é corrupção que se tem vendido, e isto não é de hoje, pela sociedade organizada e formadores de opinião, é que se em uma democracia representativa há corrupção isto é culpa de todos sob pena de não serem cidadãos.[vi] A justiça eleitoral, nas últimas eleições, intensificaram ações neste sentido.
Eis uma causa digna de preocupação e problematização, e de caráter absolutamente pessoal, pelo menos em princípio. Depois virá o processo inevitável da sicialização da consciência individual, fenômeno inerente a nossa condição de animais gregários.



[i] PRIBERAM, Dicionário. Corrupção. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx>. Acesso em: 10 dez. 2007.
[ii] WIKIPÉDIA (Ed.). Corrupção. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Corrup%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em: 05 jan. 2008.
[iii] COSTA, Rodrigo. Corrupção: haverá outro modo de vida?. Clube dos pensadores. Disponível em: <http://clubedospensadores.blogspot.com/2006/10/corrupo-haver-outro-modo-de-vida.html>. Acesso em: 05 jan. 2008.
[iv] MUNDO EDUCAÇÃO (Ed.). O que é corrupção? Disponível em: <http://www.mundoeducacao.com.br/geografia/o-que-corrupcao.htm>. Acesso em: 09 jan. 2008.
[v] RIBEIRO, Luiz Rezende de Andrade. Dicionário de conceitos e pensamentos de Rui Barbosa. São Paulo: Edart, 1967. p. 76-77.
[vi] O ministério público, inclusive, promoveu recentemente um concurso de desenho e redação nas escolas, neste sentido: “2º Concurso de Desenho e Redação da Controladoria-Geral da União: O que você tem a ver com a corrupção?” (http://www.oquevocetemavercomacorrupcao.com/).

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O AUTOR E A PERSONAGEM

Este artigo foi também publicado no jornal Tribuna de Tangará. Segue a referência:

GATTO, Dante. O autor e a personagem. Tribuna de Tangará (ISSN 23577541), Tangará da Serra, 17 set. 2014, p.07.

Na vida, respondemos, conforme nossos valores, a cada manifestação daqueles que nos rodeiam. São respostas a manifestações particulares, são impressões fortuitas do todo. O autor, no entanto, acentua cada particularidade da sua personagem, traços, sentimentos, pensamentos e acontecimentos da sua vida a partir da consciência do todo. A resposta do autor às manifestações isoladas da personagem é especificamente estética: cada manifestação particular torna-se importante a medida em que caracteriza o todo, como elemento dele.
Em princípio, o autor não alcança um todo estável e necessário da personagem, mas terá de se inteirar da sua verdadeira diretriz axiológica. A personagem, neste processo exibirá muitos trejeitos, máscaras aleatórias etc., “em função das respostas volitivas emocionais e dos caprichos da alma do autor” (BAKHTIN, 2003, p.4). Ora, “a luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo”. (BAKHTIN, 2003, p.5).
            O esquema psicológico desse processo não tem nenhuma serventia para a estética. Tratamos com ele na medida do que se realiza na obra. “[...] o autor cria, mas vê sua criação apenas no objeto que ele enforma, isto é, vê dessa criação apenas o produto em formação e não o processo interno psicologicamente determinado”. (BAKHTIN, 2003, p.5). O artista, todo situado no produto, nada tem a dizer sobre o processo. Ao falar da obra o autor substitui a atitude “efetivamente criadora” por uma atitude nova e mais receptiva em relação à obra já criada.
Depois de criada, a personagem alcança independência do autor, e ele mesmo, seu criador ativo, também se tornou independente de si. Faz-se incerto o material que nasce do autor sobre o processo de criação da personagem.
A consciência do personagem é abrangida pela consciência concludente do autor a respeito dele e do seu mundo. O interesse ético-cognitivo pelo acontecimento da personagem é acabado pelo interesse artístico do autor. O todo que conclui a personagem lhe chega de cima para baixo – como um dom – de outra consciência, do autor. Na vida, não podemos viver do acabamento, mas precisamos da consciência do inacabado para viver. O autor guia a personagem e sua orientação ético-cognitiva no mundo, essencialmente acabado.
            Há, pois, diferença da objetividade estética da objetividade cognitiva e ética. Para a estética, o centro axiológico é o todo da personagem e do acontecimento e a objetividade ética é uma avaliação equânime de significação de uma dada pessoa e acontecimento. Todos os valores éticos-cognitivos, é claro, devem estar subordinados à objetividade estética que os abarca. Os elementos do acabamento são transgredientes (fora do que está sendo pensado) tanto à consciência real da personagem quanto à possível consciência “que parece continuar em linha pontilhada”. (BAKHTIN, 2003, p.12). O autor enxerga o que enxerga a personagem e o que lhe é inacessível. Mas na consciência da consciência da personagem está o inacabado. Portanto, a unidade ativa, por princípio transgrediente à consciência da personagem, criticamente tensa e de princípio desses elementos tem o autor como agente vivo.
Decorre daí a fórmula geral da relação basilar esteticamente produtiva do autor com a personagem: relação de uma tensa distância do autor em relação a todos os elementos da personagem, espaço tempo, valores e sentidos que permitem abarcar integralmente a personagem e completá-la até fazer dela um todo com elementos que de certo modo são inacessíveis a ela mesma e nela mesma, justificá-la e acabá-la “desconsiderando o sentido, as conquistas, o resultado e o êxito de sua própria vida orientada para o futuro”. (BAKHTIN, 2003, p.12). Esta relação afasta a personagem do autor e a cria como um novo ser em um novo plano da existência, no qual ela mesma não pode nascer de suas próprias forças, reveste-a de uma nova carne que para ela mesma não é essencial nem existe. Implica o acabamento do acontecimento da vida da personagem por um espectador cognoscente e eticamente alheio. Essa relação é de profunda vitalidade e dinamismo. Não se trata de uma luta de vida, mas de morte, principalmente no caso de personagem autobiográfica. Não só nesta circunstância, mas revela-se difícil o distanciamento. Neste caso, “os valores da vida são superiores ao seu portador”. (BAKHTIN, 2003, p.13). São vivências axiológicas distintas, do autor e da personagem, em relação à vida.

Referências


BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem. In: Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 3-20.